sábado, novembro 01, 2008
Pois bem; ao se colocar a roupa para lavar, entram, teoricamente todas as meias sujas usadas desde a lavada anterior. Isso é mais ou menos óbvio. Acontece que também mais ou menos óbvio é o fato de quando entram na máquina X meias avulsas, devem sair de lá todas as X meias; só que não é bem assim que a coisa acontece. Não faz sentido, mas faz verdade. Coloca-se na máquina, digamos. 20 meias avulsas (portanto 10 pares) e saem de lá 18, 19 meias. Uma ou duas meias avulsas saem de lá simplesmente sem par. O fato não é só estranho, mas intrigante, pois como veremos a seguir, ele se torna ainda mais complexo.
As meias sem par são guardadas em um saco de meias sem par, que, como o nome diz, tem esta prosaica função de guardar meias sem par, até que... Até que já bastante aborrecido com o tamanho do bolo de meias ali dentro tomo uma atitude: abro o saco e dali tento formar pares de meias sem par que por um acaso acabam se encontrando e formando o par de novo. E é isso que me intriga, porque isso significa que em algum momento da história das minhas lavadas de roupa, pares que se desfizeram acabam se reunindo sem qualquer motivo ou motivação aparente. Uma das meias do par se extravia, some, escafede-se e desfalca a outra, que vai pro saco. Para onde vão essas meias perdidas?! Eu não sei responder, como não sei dizer onde foram parar todos os guarda-chuvas, bonés, óculos escuros que ando perdendo pela vida afora. Acontece que, ao contrário de todos esses objetos, as meias acabam reaparecendo. Assim, do nada, num belo dia de sol. E o pior, eu nunca atino para a data ou para o evento no momento em que ele acontece: só descubro que o par se refez no momento em que abro o saco de meias órfãs e tento refazer pares.
E é por isso que acabo tendo em casa mais pares de meias do que o recomendável: na falta de meias, compro novas. Mas daí, sem aviso prévio, aparecem-me meias vindo do nada. Essa historinha me ensina uma porção de coisas bonitas sobre a vida (coisas essas que serão compiladas em um lindo livro de auto-ajuda que pesca dicas líricas do próprio dia-a-dia e que pretendo lançar assim que o gênero voltar à moda e eu possa meter a faca no editor, e assim prontamente me auto-ajudar a mim mesmo com o dito). Por exemplo: o mistério misterioso do mundo dos pares perfeitos. Pares se desfazem sem uma explicação convincente. E assim, do nada, num belo dia de sol, pode se refazer. Bonito isso, né? Aprendi também que quando falta meia, ao invés de perder tempo e dinheiro e sair comprando novas, vale à pena abrir o saco dos pares desfalcados (lindo nome para um filme francês: le sac de paires tondus, se devo acreditar no tradutor do Google) e de lá tirar um ou outro par que se refez desde a minha ultima lavada. Outra coisa interessante que eu devo investigar bem mais a fundo é que há dentro da minha máquina de lavar, uma passagem para outra dimensão. De lá pode-se chegar a um país encantado, onde guarda-chuvas perdidos bailam sorridentes e livres, sem donos, junto com tampas de canetas e meias avulsas. E que desta terra estranha, uma pequena passagem de retorno traz meias sem par diretamente para meu armário.
Aprendi também que preciso parar de beber tanto.
sexta-feira, agosto 15, 2008
Palavreando o Infazível
comunidade sf. 1. Qualidade do comum. 2. O corpo social; a sociedade. 3. Grupo de pessoas submetidas a uma mesma regra religiosa. 4. Local por elas habitado.
Não só uma abstração, como de fato, um completo antagonismo com o adjetivo Internacional. Eu sei que há gente por aí a usar o termo como uma forma de "unir as nações em um movimento comum". Coisa bonita. Até mesmo coisa honorável. Só que como a turba ignara já cansou de provar; não muda nada chamá-los de povo ou de classes desprovidas. Morrem de fome e matam de desesperança da mesma maneira se fossemos chamá-los de, digamos, Ê aí, gente boa!.
E tudo por causa dessa turma que senta atrás de um teclado, usa neologismos traduzidos de algum boboca americano e sai dizendo que é formador de opinião. Formam opinião mesmo: e a opinião que formam, principalmente, é a de que são umas bestas. Prova? Pois é: a última que eu andei lendo foi que (em palavreado de diplomata, claro) se o Irã não tratar de se retratar (o péssimo trocadilho aqui fica por minha conta) com Israel será ser banido da Comunidade Internacional. Pois Irã ameaça destruir Israel com uma bomba nuclear e ganha como resposta isto, que em linguagem de prezinho pode ser traduzido como "se você não pedir desculpa a gente não brinca mais com você". A gente fica aqui pensando o quão terrível deve ser para os iranianos serem banidos da comunidade internacional que os farão mudar de opinião.
Outra expressão que me causa engulhos (já fui hospitalizado mais de uma vez ao ouvir ou ler isso) é o verbo "Condenar". Lá vai o que o Aurélio diz do verbete:
Condenar v. t. 1. Proferir sentença condenatória contra. 2. Censurar, reprovar. 3. Julgar incapaz do fim a que se destina; rejeitar. 4. Sentenciar.
Olha só o contexto com um típico exemplo de notícia:
"Da Agência de Notícias [é que a publicação em primeiro lugar não quer se responsabilizar se a notícia for fraquinha, ou falsa, em segundo, por ser um belíssimo eufemismo para: 'nós compramos nossas notícias da Retuters, porque não estamos nem aí para noticiário internacional' – e o colchetes, evidentemente são meus]:
Butsuanda: [ou qualquer outro pais miserável onde se matam o tempo todo] Nesta última terça-feira um grupo de soldados de elite [armados pelos EUA, evidente] do governo atacou novamente um campo de refugiados matando 137 e ferindo mais de 1000. É o sétimo ataque do tipo em um mês, em que já morreram mais de 700 civis. A Comunidade Internacional condenou o ataque."
E aqui me superei. Consegui na mesma frase usar o verbo condenar e a expressão Comunidade Internacional. Pois é – novamente, em linguagem de prezinho, condenar seria mais ou menos traduzido para "feio, feio, feio!". É, sem sombra de dúvida uma atitude extremamente responsável e pertinente, dado que nos últimos seis ataques a reação à condenação foi imediata, todos os soldados e generais deixaram as armas e sentaram-se na calçada, chorando de vergonha e esperando suas mães os buscarem para casa.
Se dissessem ao invés disso "Pois é, né? Morreram mais 130..."
- Perdão... Foram 137
- Ah! Pois é... 137 pretos... Bem, morreram, né? A gente sente muito. Na verdade a gente nem sente tanto assim, mas vá la...
Pois então, se ao invés do "Condenamos o Ataque" dissessem algo assim, eu teria, quem sabe, muito mais respeito a eles.
Assim como funciona um banheiro, funciona a política internacional. Num típico banheiro, quem constrói, quem usa e quem limpa são em geral pessoas diferentes. É por isso que não há verdadeira hipocrisia no que acontece pelo mundo – as regras são claras: Há os que constroem a política internacional, há os que sujam tudo, e há os que depois tratam de limpá-la.
Hipócrita mesmo é fazer entender que um não tem nada há ver com o outro.
Avoados
E assim ia a turma, de avião, para sabe-se lá que parte do mundo. Eram adolescentes e eram brasileiros – o que já configura um potencial crime contra a humanidade (ou pelo menos atentado ao pudor). Ao longo do vôo a baderna ia solta. Nem precisavam usar qualquer camiseta ou elemento de identificação. Eram facilmente identificáveis: era só ver com quem as aeromoças gritavam.
Mas justamente sobrou uma turma mais sóbria que ficou sentada da metade para adiante do avião. Eram jovens, mas se portavam mais ou menos direitinho. Não pareciam adolescentes, ou talvez não pareciam brasileiros. Aceitaram o uísque (que tinha um tempo que o uísque rolava solto nos vôos internacionais. – Aliás, uma vez eu resolvi fazer um vôo de Israel ao Brasil pela VARIG. Era uma maneira de tomar guaraná antes de chegar em casa. O vôo da El-Al foi até Londres, e de lá o avião da dita falida companhia partiu para São Paulo. Sentei-me ao lado de um irlandês muito gente boa que ia passar três meses no Brasil. Era engenheiro de exploração de petróleo em alto-mar. O nome da engenharia mais comprido que eu já tinha visto até então. E eu que estava ansioso para pedir meu guaraná fui surpreendido pelo meu vizinho de acento pedindo um uísque. Nem pensei duas vezes, pedi também. Cheers! Mantive com louvor tanto meu inglês quanto meu fígado naquela viagem, que o cara, como bom irlandês era bom de copo, e péssimo em dicção).
De que falava eu quando fiz essa digressão pelo uísque? Ah! Sim. O uísque. Falava do grupo que sentou na frente. Pois bem, de comportados que estavam, nem levantavam suspeitas; pediram uísque, uísque veio. Pediram mais, mais veio. E comida? Pois comida veio. Mais guaraná, por favor? Muito obrigado. A senhorita (chamavam a aeromoça de senhorita – o que a fez suspeitar de que eles eram gozadores, anacrônicos ou simplesmente nerds – não eram, e ela já, já ia descobrir) poderia trazer mais um pão? Muitíssimo obrigado.
O que ninguém reparava – o que era na verdade a intenção dos garotos: que ninguém reparasse – era que eles praticamente não comiam. O que eles faziam com a comida na verdade era um preparo muito especial. Picavam bem picadinho toda massa sólida e colocavam com cuidado dentro do saco de vómito. Depois picavam o pão, empapavam no guaraná e enfiavam a maçaroca no saco também. No final despejaram um pouco de guaraná puro (sem gelo) ali dentro. Não sei se o leitor sabe, mas guaraná quando em contato com pão (ou bolo) cresce e vira uma substância nem líquida nem sólida – uma espuma amarelada de aspecto nojentíssimo, mas com gosto de guaraná.
Enfim, começa o primeiro ato: um deles faz que começa a passar mal. Os outros fazem como se lhe prestassem assistência. Passa mal, levanta, senta, vai ao banheiro, volta... chama a atenção de toda a região. Velhinhas com comprimidos na bolsa vão em socorro. Não posso, sou alérgico, responde o rapaz, se contorcendo de pretendido enjôo. Estava branco feito uma geladeira. Sabe-se lá como fazia isso. Os comparsas nem tentavam ajudar mais. Estavam ocupados demais se segurando para não rir.
Quando o fedelho já tinha certeza que todo mundo não só se compadecia dele mas também já sofria só de ouvir, começou o segundo ato. Pegou o saco de vômito, enfiou a cara dentro e fez que vomitava. Fazia-o sonoramente, histericamente, quase como se alguém estivesse arrancando suas tripas pela boca. E parou. Fez que sentia-se melhor, e finalmente quando todo mundo achava que a coisa acabou, lá ia ele, de novo, a chamar o Hugo.
Fez isso umas três ou quatro vezes. E então começou o ato final. Quando tinha certeza que quase todo mundo olhava para ele, disse em voz alta:”Ah! Bem melhor agora. Gente! Que fome!” enfiou a mão no saco, tirou lá de dentro, com a mão mesmo aquela papa preparada anteriormente e pôs-se a comer ali no meio do corredor.
E tem gente que ainda acha que a crise das empresas aéreas tem como motivo o preço do petróleo. Eu, hem?
Reclamão
E, enfim, aprendi a viver tentando aceitar (pelo menos verbalmente) as coisas como elas são. Mas às vezes a frustração vem à flor da pele (ou melhor, à flor da língua – ou nesse caso, à flor dos dedos) e tenho vontade de compartilhar com os demais a infelicidade de viver. E então neste texto resolvi desabafar e tornar público todo tipo de maldição que venho tentado (às vezes com sucesso, às vezes com menos, às vezes em vão) engolir e manter privado sobre viver aqui onde vivo.
Então aqui vai o que anda me doendo no coração (ou seja lá onde a coisa doa mais):
Cerveja:
A cerveja desta terra jamais será estudada por um cervejeiro, ou seja lá como se chama o enólogo da cevada. Será bem mais propriamente examinada por um paleontólogo especialista em urina de dinossauros. Por ter apenas 30 anos de idade (tudo isso... juro por Deus) não tive o prazer de conhecer os ancestrais dos passarinhos. Mas é sabido que faziam xixi. E imagino que, se bebível, este xixi teria gosto da cerveja que vendem por aqui.
Existem as cervejas ruins, que são as concessionadas por empresas europeias (como Crowsberg e a Tuborg). Essas, se geladas, são praticamente intomáveis. Quando quentes, podem ser usadas para fazer frango no forno – e depois jogadas fora. Em contraste com as ruins, existem as tenebrosas, que são as marcas locais: Macabi e a Goldstar. Podem ser usadas, no máximo, para limpar o ralo entupido.
Ah... Ralo entupido se limpa com Coca-cola... bem, então esqueçam.
Futebol:
Aqui vai a minha dupla frustração com o futebol. A primeira é que eu de-tes-to futebol. Não gosto. Não adianta. Já tentei. Não funciona. Acho que quando eu era criancinha uma bruxa malvada jogou uma bola de couro na minha cabeça, e desde então não consigo ver mais que 10 minutos de jogo sem perder total e completamente a paciência. Mas assim já era no Brasil. Então por que a frustração agora? Porque pelo fato de eu ser brasileiro, a associação com o esporte é imediata. No exato momento em que o cidadão descobre minha nacionalidade, já começa a soletrar de trás prá frente e de frente prá trás toda a escalação de todos os times do campeonato nacional. E eu fico boiando, sem saber nem o que dizer. Depois de revelar a verdade para o sujeito, ele em geral me vem com um:
- Ah! Para aí! Você não é brasileiro coisa nenhuma! Como assim não gosta de futebol?
Sorry. Não gosto. E, decepcionadas, as pessoas me viram a cara e nunca mais falam comigo: ou por me acharem um mentiroso patológico, ou o que é pior, por me considerarem um brasileiro herege.
A segunda frustração vem do fato de que em Israel joga-se muito mal. Final de Copa do Mundo para mim é cansativo de ver. Imagine então jogo entre times daqui. Eu acho melhor nem lembrar...
Filas:
No XXV congresso internacional de sociologia e antropologia foi decidido que o assunto Filas em Israel deve ser discutido por simiologistas. Na melhor das hipóteses a convenção foi a de que Filas em Israel deve ser visto como parte da Teoria do Caos. Antigamente, filas eram um processo utilizado por repartições burocráticas a fim de dar vez ao atendimento de várias pessoas, dando preferência àquelas que chegavam antes. O sistema de filas foi totalmente destituído de qualquer funcionabilidade no momento em que o primeiro cidadão pensou: "Por que diabos estou esperando aqui feito um idiota?". Este mesmo cidadão inventou então o termo "Furar Fila", que se baseia em enfiar-se lá no comecinho da fila, como quem não quer nada. O resto das pessoas, esperando na fila feito idiotas, imediatamente chiou e pensou também "porque ele pode e eu não?".
Pronto: acabaram-se as filas. Pelo menos acabaram-se do jeito que nós conhecemos.
De uma maneira geral Israel tem um sistema burocrático bastante complicado. Não chega aos pés do Brasil (que inclusive inventou a inacreditável profissão de despachante: um sujeito que mediante pagamento fará o tramite burocrático para você), mas é um sistema pesado. Hoje em dia, para se furar uma fila, não basta ir para o começo, como quem não quer nada, sob pena de linchamento público. Usa-se, hoje em dia, de estratagemas complicados e fúteis, que na maioria das vezes não dá muito resultado, mas tenta-se. Ei-los (como diria Ibrahim, nas palavras de Stanislaw):
"É só uma perguntinha"; A fila é quilométrica. Cada um ali tem, além da própria fila, várias coisas interessantes para fazer na vida. Inclusive, perguntar algo no guichê, como parte de seu trâmite burocrático. Mas eis então que surge, vindo de seja lá onde for um gaiato se aproximando rapidamente do comecinho da fila. Todo mundo grita: "Ei, ei! Tem fila, sabia?". Ele responde (ou nem responde): "É só uma perguntinha". Pronto. Vai e se planta meio que de diagonal assim, na entrada do guichê, esperando o atendimento do presente terminar para se enfiar ali e, efetivamente, furar fila.
"Estou depois de você"; Novamente, a fila é quilométrica (evidente. Se fosse curta, ninguém estava nem aí para estratagemas). Sujeito aparece, põe as mãos na cabeça em desespero e então aplica o golpe. Sai perguntando quem é o último da fila (este sistema funciona bem numa repartição, ou banco, em que a fila não é propriamente uma fila: é um amontoado de gente sentada esperando cada um a sua vez – sem ter exatamente uma ideia clara de quem é antes de quem: invenção israelense). Quando o identifica (tudo em voz alta) diz: "Estou depois de você", como se esperasse que alguém lhe guardasse o lugar. Depois sai para furar a fila, para fazer "só uma perguntinha".
"Já estive aqui"; Pois é. O sujeito foi, voltou, revoltou, deu voltas, carimbos, pagamentos, depois de arrumada a papelada, não vai enfrentar novamente a mesma fila, se já esteve ali. Este princípio não se discute aqui em Israel. É lei. Acontece que utilizando-se dele, qualquer gaiato vem e faz pose de infeliz e já vai dizendo que já esteve ali antes. Claro: no mês passado. Mas entra feito o estelionatário que é.
Transito:
Em uma frase: Fabricante de buzinas no oriente médio fica rico em dois dias. Quanto menos europeia a cidade, pior. Durante muito tempo rodei as ruas de bicicleta. Meu sonho era ter eu também uma buzina, para poder revidar. Fantasiava em colocar na parte de trás uma bateria de ácido 12 volts, e no meio do quadro uma gigantesca tuba elétrica de fazer trio elétrico cuspir e sair nadando. Sujeito buzina eu replico com um pequeno terremoto. Como buzinam! Pisca-pisca? Quase ninguém conhece. Freio? Só quando for para cantar pneu.
Lembro no Brasil, que por si não era grande coisa mesmo. Um trilhão de mortos por ano, e ninguém nem aí. Uma falta de respeito tártara. Agora una à total e completa falta de respeito uma incapacidade formidável para conduzir um veículo automotivo (desde patinetes motorizadas a caminhões jamanta). E claro: a perpétua buzina. Pronto, agora você tem um motorista israelense típico.
Morrem aqui de acidente de trânsito algo como 500 a 600 pessoas por ano. Nesta atual intifada morreram ao longo de 5 anos menos de mil. Isso significa que num conflito armado com vizinhos morreram 2.5 vezes menos pessoas que nas estradas. Isso mesmo – guerra aqui (até aqui) mata menos que o trânsito. E tem sido assim desde a criação do estado em 1948.
O pior, pelo menos para meus nervos, não é nem a periculosidade. É em especial problemática a situação em que um motorista, no meio de um trânsito pesado leve em consideração praticar o abuso que descrevo acima no itens "fila". Aí eu tenho vontade de sair do carro, e linchar o dito. Tenho que começar a praticar Ioga.
Longe da Civilizzia Brazillis;
Nos principais centros e emigração de brasileiros pelo mundo há, em um canto ou outro, um barzinho, ou um cantinho onde pode ser encontrado Leite Moça, azeite de dendê, polvilho azedo e doce, guaraná, sonho de valsa, e em alguns casos, até mesmo coxinha, pastel e afins.
Pois aqui não. Nada. Coisa nenhuma. Minha mãe me manda de vez em quando um pacote com as coisas que eu mais gosto, incluindo aí pó para preparo de pão de queijo. Às vezes chega até um livro em português. Mas pastel de camarão de feira... necas.
Meu mundo por um caldo de cana! Meu império por um risoles de palmito! Vendo meu corpo e minha alma ao demônio por uma coxinha. E por favor; não me venham convencer que nem é assim tão difícil fazer. Eu sei. Já fiz várias vezes. Mas o legal não está no fazer em casa, e sim em estar caminhando na rua, sentir o cheirinho e entrar sem nem reparar nos cachorros e no vazilhame de ovo cor-de-rosa no balcão.
Requeijão então?! Catupiry?! Ah! Melhor parar por aqui, que ainda não almocei hoje.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Cafezinho
O que faz com que um café possa ser considerado um café ruim? A princípio teríamos que pensar bem o que faz com que um café afinal de contas seja bom. Você pega uma espécie de frutinha, seca, deixa ela tostar, depois moe num pó e faz uma infusão do resultado obtido. No final das contas, o que se obtém é um líquido preto, opaco, amargo e – proporcionalmente ao volume – caro. Quem diabos inventou essa história de tomar café?
Tinha, uma vez, faz muito tempo, um pequeno texto nos potes de Nescafé contando resumidamente a história da bebida. Já não lembro mais as exatas palavras do texto, mas com boa vontade era mais ou menos assim:
"Há milhares de anos, na antiga Pérsia um pastor de cabras levava seu rebanho quando reparou uma das cabras comendo pequenos frutos vermelhos de um arbusto. Notou então como a cabra se tornou mais energética e ativa. A partir daí o pastor resolveu secar o fruto, torra-lo, moe-lo e misturá-lo com água fervente. Surgiu então o café."
Tá certo; falta espaço em um pote de Nescafé para contar a história da coisa. Mas daí para resumir desse jeito, fica até chato. Ficava imaginando um desenho do Perna Longa assim: Perna Longa de pastor vê uma das cabras pulando feito doida, então uma pequena lâmpada acesa surge na cabeça dele "plim!" e ele diz: "Já sei! Vou inventar o café!"
E assim o pastor pula 2500 anos de história sem qualquer penalidade. Já a história do café solúvel eu conheço. Foi na época da inquisição: Os inquisidores estavam procurando uma maneira infalível de ao mesmo tempo punir os infiéis, torturá-los a fim de chegar à confissão e mantê-los acordados. Inventou-se então o café solúvel. Essa invencionice de superprodução brasileira, segunda guerra e etc foi idéia da Igreja para escapar da culpa de ter produzido coisa tão asquerosa.
Mas existe coisa muito pior. Por exemplo, o café de avião. Tomei um desses, me lembro bem, num trem na Austrália (como assim, um café de avião num trem? Pode disso? Sim, pode sim, caro leitor. É que café de avião é uma classificação genérica de várias bebidas horrorosas derivadas do original café; efetivamente café de avião pode ser servido em qualquer lugar do planeta – incluindo um trem). Onde estava? Ah! Sim, num trem de Sydney a Melborne. Era um copinho desses que fecha por cima. Não é para você não derramar. É para você não ver o que tem dentro. Desde quando, por exemplo, que é possível ver o fundo de um copo cheio de café? Fácil: é um café de avião. É como água suja, com cheiro de água suja e teoricamente com gosto de água suja. Teoricamente porque eu não tenho a menor ideia de que gosto tenha água suja, que nunca provei. Neste caso, a água suja lembra vagamente o gosto de café. Este é, portanto, o café de avião. É tão fraco que dá sono.
Cientistas de diversas partes do mundo ainda pesquisam os motivos pelo qual o café de avião é preparado desta maneira. Até agora ninguém descobriu (soube-se, mais tarde, que em meio a uma discussão alguém sugeriu um cafezinho. Na falta do produto legítimo, acabaram tomando as amostras da pesquisa. Todos caíram no sono e nunca mais se recuperaram).
Tem também o oposto do café de avião: o café turco. O que? Toma-se café na Turquia? Imagino que sim, embora ainda não estive na Turquia. E me diga uma coisa: o café que se toma na Turquia é turco? Sim, imagino eu, embora mais da metade da população considere a bebida nacional o chá de macieira.
Café turco é algo bizarro, bárbaro, truculento. Ele é também bem simples. Pegue pó de café e cozinhe com água até ferver. Depois abaixe o fogo, ponha um pouco de açúcar e algumas ervas. Misture bem e sirva.
Com pó e tudo.
A proporção é de mais ou menos umas três colheres de chá de pó de café por copinho. Cozinhado! É tão forte que se misturado à gasolina faz o carro voar. E toma-se quase até o pó no fundo ficar aparente. Tem, é claro, quem beba o pó também. Mas esses são os hardcores, os soldados em vigília, os porteiros, os colunistas com seus textos atrasados.
Bebe-se muito disso por aqui, e só recentemente se descobriu que café pode ser uma bebida agradável além de tudo. Grãos selecionados, machinetas italianas e outras fofuras mais sendo importadas.
Aí está uma linha trágica para qualificar os vários povos. Há os que tomam cafés bons, como costumam fazê-lo os latinos, como italianos, franceses, espanhóis e até mesmo brasileiros (fora de Niterói, que café de butiquim em Niterói é o fim da picada). Há os que tomam aquela coisa aguada e quente que ninguém jamais vai entender de onde veio, como bem sabem-se os Anglo-Saxões e há, aqueles que não tem meio termo: é para tomar café? Pois bem, macho que é macho come o pó e não fica passando aguinha... Esses são os daqui.
Continho de Natal
Eram dois velhinhos sentados na praça. Tempo bom, lagarteavam, como de resto não sobrava muito mesmo para fazer, e olhavam os jovens (jovem para nossos velhinhos da história era qualquer um que passasse), as jovens e papeavem entre si.
- Vem chegando o natal...
- Pois é... Dizem.
- Como assim dizem? É um fato. Tirei a folhinha do calendário de hoje e lá estava: 20 de dezembro. Vem chegando o natal.
- Resta saber se é o natal que vem chegando ou somos nós que vamos chegando até ele.
- Você sempre foi um comunista nietzscheano.
- E você sempre foi um mal humorado fatalista... "vem chegando o natal..." – repetiu com vozinha de mongolóide. – Comentário mais besta, seu! Como se a televisão não fizesse questão de lembrar isso o tempo todo.
E o nietzscheano tirou uma maçã da sacola de feira, uma faca mais ou menos velha e começou a descascar, rodando a maçã e tirando uma espiral de casca perfeita.
- Além de comunista e filósofo de araque você ainda deu de virar noveleiro. E quem nos tempos de hoje ainda come maçã sem casca?
- Quem nos tempos de hoje ainda come maçã! Estou descascando porque a casca engata no aparelho dos dentes.
- Noveleiro, comunista, filósofo de araque e ainda por cima engraçadinho. Ô, Guimarães, bonito isso! Onde foi que você aprendeu a descascar maçã deste jeito?
Guimarães pegou a casca, que tirara inteirinha da maçã, em um fio só, e deu para o amigo.
- Viu só? Aprendi vendo novela. Tó prá você, que gosta tanto de casca de maçã.
- Dizem que tem mais vitamina que na maçã toda.
- Nem se apoquente com tua saúde, João. Vaso ruim não quebra. – Guimarães começou a comer a maçã tirando nacos com a faquinha e colocando os pedaços na boca.
Depois ficaram em silêncio, olhando o povo passar, João todo esticadão no banco da praça e Guimarães sentado curvado sobre a maçã que comia devagarzinho.
- É o natal desses dias que já não é mais como os natais de antigamente, Guimarães.
- Você de novo com essa história de natal?
João ignorou o comentário do outro:
- Aquela coisa de dar presente prá todo mundo, ver os netos se debandarem depois da ceia, ser espizinhado pelo porteiro o ano inteiro porque esqueceu de mandar um cartão de natal. As pessoas não estão mais nem aí para aquelas coisas realmente boas que tinha no natal na nossa época.
- Tá ficando velho, hem amigo João! Depois dos oitenta deu para ser saudosista.
- Diz que você não sente saudades!
- Eu tiro a casca por que gosto de descascar a maçã assim... Ninguém faz isso melhor que eu no mundo inteiro. Faz uns quarenta anos que não errei uma única maçã. Nem gosto muito de maçã. Até prefiro a maçã com a casca. Mas meu barato mesmo é descascar.
- Ô, Guimarães! Eu sentindo aqui minhas saudades dos velhos natais e você vem me falar do teu tesão por... por... descascar maçã?!
- Você perguntou.
- Perguntei faz uns trinta minutos! Nós dois velhos. Eu saudosista e você esclerosado!
- João, cada uma! Dois velhinhos sentados num banco de praça falando de natais antigos. Essa é boa. Eu posso ser velho, mas não virei ainda um clichê.
- Quer falar sobre o que então, Guimarães?
- Sexo.
- Ah, claro. Sexo.
- Oras! Por que não, realmente? Só porque eu sou velho não posso falar sobre sexo?
- Falar a gente ainda pode, né? – Depois fez com a mão como se espantasse uma mosca: - Noveleiro tem cada uma!
- Tá bom, João. Vamos falar sobre o natal de 1938. É o assunto que eu escolho quando quero que meus netos dêem no pé e me deixem em paz.
- Guimarães, natal, natal passado e sexo é questão de assunto. Tudo está valendo quando há contexto.
- Agora quem anda a filosofar é você. Quer dizer então que tem tudo a mesma importância para você?
- Não foi o que eu disse.
- Tá. Então me diz, João. O que você acha mais especial. Natal ou Sexo.
- Diz você!
- Prá mim, sexo.
- É mesmo? Quero ver agora, justifique!
- Natal, amigo João, natal tem todo ano...
E tirou uma laranja do sacolão da feira.