sexta-feira, abril 10, 2009

Um faláfel na Rua Tuval

A Rua Tuval em Ramat Gan tem vários puteiros. Toda aquela região tem. Do lado de fora está escrito Peep Show (פיפ שואו, na forma fonética, em hebraico), mas todo mundo sabe o que rola ali dentro. São portinhas de decoração kitsch puxado às vezes para o rosa, outras para o vermelhão. Há um que ao invés de discreto, tem uma entrada que faz apologia a um templo romano, apesar da entrada diminuta que se abre para um corredor comprido.

As portinhas ficam entre algumas oficinas, micro-indústrias, edifícios dos anos 50 impossivelmente mal construídos, caindo aos pedaços com todo tipo de empresa funcionando ali dentro. Na maioria dos endereços na região você vai encontrar uma salinha onde normalmente um judeu ortodoxo vai estar polindo diamantes. Uma porcentagem enorme de todos os diamantes do mundo são polidos em alguma sala dentro daqueles predinhos horrorosos.

Caminhar pela Tuval em dia de semana é praticamente impossível. A rua já é estreita, a calçada já é completamente esburacada, mas carros e caminhões invadem todo centímetro quadrado, horas fazendo barbeiragem pela rua, horas subindo em cima da calçada em busca de um estacionamento provisório (a prefeitura de Ramat Gan é pródiga em dar multas de estacionamento. Ainda mais que a famigerada e famosa prefeitura de Tel Aviv).

Poderia ser uma das regiões mais decadentes de Israel. Mas feito ervas daninhas no meio desse campo de desolação, crescem ali arranha-céus de aço e de vidro, onde mantém escritórios várias importantes companhias nacionais e internacionais. Descendo a rua Tuval, se esgueirando por entre os carros muitissimo mal estacionados, cheirando óleo frito de transontem, se vê logo adiante enormes edifícios, que de longe parecem ter sido colocados no lugar errado. Quando visto de cima, essa região parece só uma continuação de Tel-Aviv, logo ali do outro lado da Ayalon. Os predinhos velhos e horrorosos nem parecem existir visto deste ângulo. Para falar a verdade, à altura dos olhos, só se vêem as fachadas dos pequenos restaurantes e lanchonetes, peep shows e oficinas mecânicas. O que tem acima destes parece ser ignorado automaticamente pelos olhos.

Vários desses predinhos (3, 4 andares) encontraram o mesmo destino de serem demolidos e transformados em (caríssimos) estacionamentos. Outros acabam se transformando em mais arranha-céus. Imagino que vários edifícios ali estão só esperando autorização da prefeitura para serem transformados em fábricas de dinheiro imobiliário. Rola muitíssima grana por ali. Uma das mais importantes bolsas de diamante do mundo está lá no fim da rua, seguindo depois da rotatória e depois à esquerda (a Bolsa dá o nome à região, em hebraico בורסה - Bursa).

E onde rola muita grana rola muita máfia.

Às vezes se vêem por ali Mercedes negras faiscantes, Porches Carreira 4 conversíveis e BMWs (os preferidos do pessoal do "mercado informal"). Não poucas vezes se pode ver em um quiosque pessoas perfeitamente normativas, passíveis de serem encontradas tomando café em qualquer quiosque da cidade trocando dólares e checando diamantes - e tomando café turco.

Todo esse povo - e não é pouca gente - tem que comer em algum lugar. É por isso que boa parte dos espaços térreos na rua Tuval e tantas outras da região estão tomadas por restaurantes. Alguns são caros e muito bons. Outros são prato-feito de comida caseira. Vários são do estilo tiragosto clássico israelense: houmus, kabab, shawarma e salada. Tem lá no fim da rua, na frente da rotatória um McDonald's. McDonald's Kasher. E tem na mesma rua pelo menos uns 3 faláfel.

Um Faláfel eh uma birosca diminuta que vende, como fica claro pelo nome: faláfel. Há um balcão com saladas diversas debaixo de uma vitrine. Atrás do balcão há um sujeito com cara de mafioso, camisa suja e raramente luvas descartáveis. Atrás do sujeito feio, há uma chapa quente (para fazer peito de frango que às vezes se vende nestes lugares), um suspeito Shawarma rodando num espeto e um fritador automático cheio de bolinhas de faláfel e óleo sabe-se de quando borbulhando. Parece uma rede nacional, porque todos os Faláfel que tenho visto no país inteiro são mais ou menos assim. (Talvez todos controlados pela mesma família, porque todos os vendedores que tenho visto são igualmente feios). A coreografia de montagem de um faláfel também é curiosamente a mesma e todo lugar:

O vendedor pega uma pita e um estilete. Com um movimento rápido ele corta uma pequena orelha da pita e a joga em um prato cheio de fatias iguais àquela, que será aproveitado para se preparar um tiragosto mais tarde (esses pedacinhos, fritos no óleo de transontem do faláfel e temperado com zatar). Enquanto enfia o dedo para abrir a pita como se fosse um bolso, ele pergunta: "Houmus? Pimenta?" e já vai metendo ali dentro pasta de houmus. Pega com uma pinça de cozinha uma bolinha de faláfel, joga para o alto e faz uma sesta de três pontos dentro da pita aberta na outra mão. Repete isso umas 5 vezes sem errar nenhuma. Daí pergunta "Salada? Com ou sem cebola?" e mete ali dentro tomate e pepino impossivelmente picadinhos. Às vezes mete repolho (sem perguntar), fecha tudo com mais umas 5 bolinhas de faláfel e (surpresa!) batatinhas fritas nojentamente molengas. Dentro da pita, junto com todo o resto. Espirra por cima Tehina com uma bisnaga igualzinha àquelas que tem em botequins no Brasil, mete tudo dentro de um saquinho e te dá o troço. Custa de 10 a 15 shekels, sem bebida. A fila demora uns 5 minutos, mais 12 segundos pro cara te preparar, 10 minutos para comer - fastfood em sua mais perfeita concepção.

5 comentários:

Pax disse...

Cara,

Você escreve muito bem. Mesmo. O leitor entra exatamente onde você descreve. Isso não é fácil. E você faz com maestria.

Parabéns, e um grande abraço.

RW in Miami disse...

Me deixou com agua na boca !

Arina disse...

Nossa, mais fiel impossivel a tua descricao dos lugares onde se vende falafel por aqui. Ja que estas falando de Ramat Gan, ja comeste schwarma no Shemesh, ali na Jabotinsky? Ahi tov baaretz!!!

Adalberto Akihiro disse...

Gabriel, me desculpe, mas o que é uma pita?

Gabriel Paciornik disse...

Uma pita é um pão sírio, como se chama no Brasil. Um negócio mais ou menos assim: http://www.micro-cosmus.com/sipur/images/pita.jpg

[]'s!