Tudo previsível.
A linguagem messiânica, os movimentos de mãos de líder, e a impressionante quantidades de clichês repetidos ad nauseum.
Como previsto, Nataniahu deu um show de oratória. Falou muito, falou bem e não disse absolutamente nada. Invocou a história do sionismo, invocou as várias tentativas de aproximação com os palestinos (incluindo aqui dezenas de clichés sem gosto, e sem verdade) e fechou o botequim com o seguinte resumo:
Aceita sentar-se com qualquer líder árabe (ou com todos) para conversar sobre paz sem (sic) qualquer pré condição (embora não tenha especificado para conversar exatamente sobre o que);
Aceita a existência de um "lar palestino" (cá, perceber que a palavra "estado" não foi usada) desmilitarizado. Refugiados deverão ter sua situação resolvida fora das fronteiras de Israel. E Jerusalém seguirá indivisível (como se ainda o fosse) capital de Israel;
Sobre os assentamentos, Natanyahu conseguiu enrolar até a mim e a outros melhores que eu: afirmou que não construirá mais cidades, e que não expandirá as existentes, mas que se reserva ao direito de cuidar do crescimento natural da população afim de que possam "levar uma vida normal". Como, exatamente, ninguém entendeu. Vai construir casas debaixo da terra? Ou será que expansão é uma questão semântica discutível.
A resposta do Obama não leva em consideração que em momento algum Natanyahu explica o que fará com os postos avançados e as colônias ilegais (quem dirá as legais).
Enfim, quality time em frente à televisão, ao invés de ficar vendo novela.
Segunda-feira, Junho 15, 2009
Sexta-feira, Junho 12, 2009
O Caso do Colchão Velho
História absolutamente verídica relatada pelo Yediot Haharonot de ontem. Passou-se em uma pequena cidade satélite de Tel-Aviv não identificada pela reportagem.
O "causo" foi o seguinte. A filha, lá pelos seus 40 anos de idade, comprou um colchão de presente para mãe.
A reportagem ainda esclarece que ela ganhou um desconto especial pelo local de trabalho. É uma maneira cafajestésima que empresas de cartão de crédito e de promoções têm de se verem livres de estoques e de produtos encalhados: imprimem para os funcionários de empresas associadas um boleto de "desconto" e estes, que nem sequer pretendiam comprar qualquer coisa, se vêem compelidos a "aproveitar" a oportunidade.
Enfim, comprou o colchão. Como não realmente precisava do colchão, ficou lá ela a pensar com seus botões o que fazer com o colchão que não precisava: deu de presente para mãe. Mas dar de presente para mãe não parecia para a distinta uma bossa legal: vai chegar em casa com o embrulho debaixo do braço dizendo "mamãe, olha só o que eu comprei prá você!"? Enfim, pro soneto ficar pior que a emenda, resolveu fazer uma surpresa.
Chegou na casa da mãe com o colchão, quando esta não estava lá, levou e velho embora para junto aos latões de lixo na rua e ficou esperando a velha para fazer uma "surpresa".
Pensando nisso agora, me ocorre a impressionante quantidade de colchões atirados à própria sorte pelas ruas de Israel. Deve ter promoção à beça por aí, porque nunca vi povo para trocar de colchão como por aqui.
Enfim, chegou a mãe, que realmente ficou surpreendida. Tão surpreendida que desmaiou, e quase teve um ataque cardíaco. É que a velha costumava guardar suas economias dentro do colchão. Em dólar. E tinha ali dentro mais de um milhão deles.
Saíram as duas estabanadas rua afora em busca do colchão velho, que já tinha sido recolhido pelo caminhão de lixo. De lá correram, de carona (com um outro caminhão de lixo, a reportagem ainda acrescenta), até o depósito da região de Tel-Aviv. Depósito esse que recolhe mais de 3000 toneladas de lixo por dia.
Até o fechamento da edição, informavam, não haviam achado ainda o colchão.
Eu fiquei lá pensando: 1) Com o dólar, do jeito que anda, guardar economias em espécie é uma forma lenta de jogar todo o dinheiro fora, de qualquer maneira. 2) Se a filha - como fez questão de informar a reportagem - estava na casa dos 40, a mãe deveria estar lá pelos 60, ou 70. Fico a me perguntar: estava guardando o dinheiro para que? Ou para quando? 3)Se tinha tanto dinheiro, por que não trocou de colchão a própria mãe, pois como está na reportagem, o colchão já tinha "décadas"? 4) O colchão velho eu não sei, mas esses novos são absurdamente pesados. A filha provavelmente não poderia enfiar-lo dentro da casa da mãe sozinha, assim que certamente teve auxilio do motorista da loja - que foi provavelmente quem ajudou a jogar o colchão velho fora. E conhecendo tanto de colchão, deve ter reparado que o colchão velho tem uma extranha textura por debaixo do tecido. Eu não procuraria no depósito de lixo, e sim na casa de algum motorista aí que já pediu demissão faz tempo. E, finalmente, 5) 3000 toneladas de lixo por dia num único depósito de lixo num país do tamanho de Israel? Um colchão, que é 100% não biodegradável e em boa parte reciclável? Com uma política ambientalista tão precária, basta o Hamás esperar uns anos, e nós nos daremos conta de nos jogarmos no mar.
O "causo" foi o seguinte. A filha, lá pelos seus 40 anos de idade, comprou um colchão de presente para mãe.
A reportagem ainda esclarece que ela ganhou um desconto especial pelo local de trabalho. É uma maneira cafajestésima que empresas de cartão de crédito e de promoções têm de se verem livres de estoques e de produtos encalhados: imprimem para os funcionários de empresas associadas um boleto de "desconto" e estes, que nem sequer pretendiam comprar qualquer coisa, se vêem compelidos a "aproveitar" a oportunidade.
Enfim, comprou o colchão. Como não realmente precisava do colchão, ficou lá ela a pensar com seus botões o que fazer com o colchão que não precisava: deu de presente para mãe. Mas dar de presente para mãe não parecia para a distinta uma bossa legal: vai chegar em casa com o embrulho debaixo do braço dizendo "mamãe, olha só o que eu comprei prá você!"? Enfim, pro soneto ficar pior que a emenda, resolveu fazer uma surpresa.
Chegou na casa da mãe com o colchão, quando esta não estava lá, levou e velho embora para junto aos latões de lixo na rua e ficou esperando a velha para fazer uma "surpresa".
Pensando nisso agora, me ocorre a impressionante quantidade de colchões atirados à própria sorte pelas ruas de Israel. Deve ter promoção à beça por aí, porque nunca vi povo para trocar de colchão como por aqui.
Enfim, chegou a mãe, que realmente ficou surpreendida. Tão surpreendida que desmaiou, e quase teve um ataque cardíaco. É que a velha costumava guardar suas economias dentro do colchão. Em dólar. E tinha ali dentro mais de um milhão deles.
Saíram as duas estabanadas rua afora em busca do colchão velho, que já tinha sido recolhido pelo caminhão de lixo. De lá correram, de carona (com um outro caminhão de lixo, a reportagem ainda acrescenta), até o depósito da região de Tel-Aviv. Depósito esse que recolhe mais de 3000 toneladas de lixo por dia.
Até o fechamento da edição, informavam, não haviam achado ainda o colchão.
Eu fiquei lá pensando: 1) Com o dólar, do jeito que anda, guardar economias em espécie é uma forma lenta de jogar todo o dinheiro fora, de qualquer maneira. 2) Se a filha - como fez questão de informar a reportagem - estava na casa dos 40, a mãe deveria estar lá pelos 60, ou 70. Fico a me perguntar: estava guardando o dinheiro para que? Ou para quando? 3)Se tinha tanto dinheiro, por que não trocou de colchão a própria mãe, pois como está na reportagem, o colchão já tinha "décadas"? 4) O colchão velho eu não sei, mas esses novos são absurdamente pesados. A filha provavelmente não poderia enfiar-lo dentro da casa da mãe sozinha, assim que certamente teve auxilio do motorista da loja - que foi provavelmente quem ajudou a jogar o colchão velho fora. E conhecendo tanto de colchão, deve ter reparado que o colchão velho tem uma extranha textura por debaixo do tecido. Eu não procuraria no depósito de lixo, e sim na casa de algum motorista aí que já pediu demissão faz tempo. E, finalmente, 5) 3000 toneladas de lixo por dia num único depósito de lixo num país do tamanho de Israel? Um colchão, que é 100% não biodegradável e em boa parte reciclável? Com uma política ambientalista tão precária, basta o Hamás esperar uns anos, e nós nos daremos conta de nos jogarmos no mar.
Domingo, Junho 07, 2009
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Nataniahu mandou avisar que vai fazer o seu grande discurso sobre sua visão de paz e segurança para Israel e o Oriente Médio.
Se ele se define categoricamente a favor da colocação do Obama, ele perde toda sua coalizão. Se afirmar que não vai desmontar coisa nenhuma, entra em atrito extremamente crítico com o governo americano.
As opções são: falar muito e dizer coisa nenhuma. Essa opção é normalmente a predileta do Nataniahu e assim tem feito até agora. Vai servir para adiar o problema, o que, no caso do problema de manter-se em seu cargo, não deixa de ser uma solução.
Outra opção é falar muito e não fazer absolutamente nada depois. Típico do clássico político israelense. É curioso que vendo hoje uma entrevista com a líder da oposição Tzipi Livni me deu a impressão de que é o que ela faria se estivesse na posição de primeiro ministro hoje. É também a teoria de Gideon Levy. Neste caso, vai ser complicado, porque por um lado, há a pressão da coalizão para principiar a construção em vários pontos da Cisjordânia. E de outro lado, há o governo dos EUA, esperando ação exatamente inversa.
Terceira opção: Fazer a vontade de todo mundo, dizer que espera ações do lado palestino também, e que dará cada passo baseado no passo do outro lado e afins. É o mais provável que vá fazer, o que traduzindo em miúdos, significa fazer absolutamente nada, porque hoje, politicamente, economicamente e militarmente, o governo do Fatah não tem qualquer condições (nem sobre a população nem sobre o Hamás) de fazer qualquer coisa.
É provável que não importa o que diga, o objetivo principal neste ponto será ganhar tempo.
Ação e Reação;
O governo de Israel decidiu reclamar aos EUA que a construção em cidades já existentes na Cisjordânia, acompanhando o crescimento natural da população é um ato perfeitamente legítimo. Resposta do governo americano: Legítimo se essas cidades, depois de um acordo sobre as fronteiras finais, ficarem do lado de Israel. Querem conversar sobre fronteiras finais? Vamos nessa!
E a conversa acabou nisso - por enquanto.
Se ele se define categoricamente a favor da colocação do Obama, ele perde toda sua coalizão. Se afirmar que não vai desmontar coisa nenhuma, entra em atrito extremamente crítico com o governo americano.
As opções são: falar muito e dizer coisa nenhuma. Essa opção é normalmente a predileta do Nataniahu e assim tem feito até agora. Vai servir para adiar o problema, o que, no caso do problema de manter-se em seu cargo, não deixa de ser uma solução.
Outra opção é falar muito e não fazer absolutamente nada depois. Típico do clássico político israelense. É curioso que vendo hoje uma entrevista com a líder da oposição Tzipi Livni me deu a impressão de que é o que ela faria se estivesse na posição de primeiro ministro hoje. É também a teoria de Gideon Levy. Neste caso, vai ser complicado, porque por um lado, há a pressão da coalizão para principiar a construção em vários pontos da Cisjordânia. E de outro lado, há o governo dos EUA, esperando ação exatamente inversa.
Terceira opção: Fazer a vontade de todo mundo, dizer que espera ações do lado palestino também, e que dará cada passo baseado no passo do outro lado e afins. É o mais provável que vá fazer, o que traduzindo em miúdos, significa fazer absolutamente nada, porque hoje, politicamente, economicamente e militarmente, o governo do Fatah não tem qualquer condições (nem sobre a população nem sobre o Hamás) de fazer qualquer coisa.
É provável que não importa o que diga, o objetivo principal neste ponto será ganhar tempo.
Ação e Reação;
O governo de Israel decidiu reclamar aos EUA que a construção em cidades já existentes na Cisjordânia, acompanhando o crescimento natural da população é um ato perfeitamente legítimo. Resposta do governo americano: Legítimo se essas cidades, depois de um acordo sobre as fronteiras finais, ficarem do lado de Israel. Querem conversar sobre fronteiras finais? Vamos nessa!
E a conversa acabou nisso - por enquanto.
Sábado, Junho 06, 2009
O fim de uma era. Já era.
O grande problema a ser enfrentado em Israel nesta era Obama nem são realmente os outposts avançados, ou as colônias no westbank. O problema vai ser na verdade lidar com os radicais judeus.
Ainda na época em que Obama já eleito eu via as pesquisas aqui em Israel apontando para a vitória do Nataniahu e já previa problemas.
Pois problemas vieram, e são só uma pequena prévia do que está por vir.
A questão é que depois de anos de cozinhar gelo em água gelada, parece que o governo norte-americano decidiu levar a decisão de limpar a casa aqui no Oriente Médio a sério.
Coisa que tirou muita gente aqui do sério: "Como assim? Quer dizer, todas esses anos, sair dos territórios ocupados... Eles estavam falando a sério? Era para levar-los literalmente?"
Pelo jeito, houve um tempo que não - não era para levar isso literalmente. Era, por assim, dizer, uma sugestão.
A maioria dos esquerdistas - pessimistas por natureza e experiência, acha que agora vai ser a mesma coisa, só que os cães vão ladrar um pouco mais alto.
A maioria dos direitistas - pessimistas por natureza e experiência, acha que agora é à sério, e que estamos na bica de uma enorme tensão entre Israel e os EUA.
E entre Israel e seus radicais.
Durante todos estes 40 anos, a criação de várias colônias e cidades na Cisjordânia se tornaram um empecilho de ordem técnica. Eles atrapalham a vida da população local de palestinos e obviamente compromete a criação de um futuro estado palestino. Mas é um problema técnico: derruba-se esses assentamentos e seguimos viagem. O problema mesmo, ao longo desses 40 anos foi a criação de uma mentalidade expansionista radical que foi legitimizada tanto pelas autoridades religiosas como as autoridades governamentais.
Isso não se derruba assim com a mesma facilidade.
A primeira grande e séria tentativa de se retirar colonos foi na faixa de Gaza. Em termos logísticos, foi um sucesso. Em termos efetivos para demolir essa mentalidade, um fracasso retumbante. A subida do Hamas ao governo de Gaza, os frequentes ataques de foguetes daqueles lados são normalmente usados como desculpa e explicação ao mesmo tempo. O argumento passa a ser: "Não adianta nada. Nós damos a eles a chance de se tornarem um país sério, e eles estão mais preocupados em nos atacar que a ajudar a eles mesmos". E o segundo argumento, mais perigoso, pois por indução impossibilita qualquer plano de retirada: "Nós damos um dedo, mas eles querem a mão. Nós damos a mão, eles querem o braço. Eles nunca estarão satisfeitos".
Gaza eram 8000 colonos espalhados por uma região perfeitamente cercada. Cisjordânia não é bem assim.
Uma das imagens mais fortes de uma tentativa de retirar um dos postos avançados foi Amona. Amona era um ajuntamento de meia dúzia de casas que, se fosse em qualquer outra parte do mundo, passaria completamente despercebido. Todo o grupo de colonos recebeu a informação sobre a retirada e foi ajudar os colegas. O que se vê no vídeo abaixo é o que se deu:
É muito, e não é tudo. Todos os postos avançados destruídos nas última semana foram reconstruídos em poucas horas. E o grupo de radicais simplesmente se radicaliza mais e mais. Após a retirada de outra pequena vila, os colonos simplesmente atearam fogo aos campos palestinos na região. E prometeram que assim será a cada localidade retirada.
Absolutamente nada de concreto está sendo planejado pelo governo ainda, mas os colonos já fecharam a principal estrada de Israel - Tel-Aviv/Jerusalém - durante meia hora, como protesto.
De uma maneira geral, a divisão da população israelense entre direita e esquerda, na minha opinião se baseia em duas visões básicas. Os de esquerda não se iludem. Sabem que é muito difícil amansar radicais tanto de Israel quanto do mundo árabe, e que um país para os palestinos é, a médio prazo quase impossível. Mas acreditam que a situação pode melhorar com uma série de medidas e facilitações ao palestinos, e portanto votam em liberais de centro e centro-esquerda. Tenho às vezes a impressão de que a maioria deles não consegue conviver confortavelmente com a idéia de uma Palestina, vizinha a Israel, ou não conseguem realmente acreditar que esses dois países possam conviver em paz a curto e médio prazo. Mas o discurso de um político nesta direção vem a confortar. Especialmente quando há esta certeza de que muita coisa, mesmo, não vai mudar nos próximos anos.
Já os de direita simplesmente não gostam da situação atual, mas preferem o status quo a qualquer mudança - afinal, mudança está claramente associada a passos em direção a um país para os palestinos. Preferem, até mesmo, políticos que garantam medidas fortes contra radicais (e toda a população) palestinos em frente a ações de terror e foguetes.
Novamente, de uma maneira geral, tanto direitistas quanto esquerdistas não radicais não tem uma agenda clara a respeito da relação com o mundo árabe em geral e os palestinos em particular. Especulam a respeito de uma visão de "paz", que, se não é muito clara, pelo menos na mitologia popular, já inclui um país vizinho chamado Palestina. Uma espécie de consenso geral que se não é tangível, pelo menos é teoricamente concebível pela maioria.
Essa é a grandessísima maioria da população em Israel, composta de moderados, seja de esquerda ou direita.
Os radicais de esquerda, pelo menos dentro deste artigo, dispensam explicações e pormenores. Vamos aos radicais de direita.
Existem vários tipos de radicais de direita. Na base da pirâmide estão os colonos radicais. São os que sustentam com ações toda a gama de pensamento teórico e teológico a respeito da relação com os palestinos, povos árabes e a terra. Eles se baseiam em duas importantes mentalidades. A primeira é a do "Halutz", ou pioneirismo dos velhos tempos de Ben-Gurion. É uma forma de nostalgia num mundo já tão menos radical e romântico do que naquela época. A outra é de base teológica: esta terra pertence aos judeus. Por motivos religiosos, históricos e, por que não? Por usucapião (seguindo o chavão "quando aqui chegamos não havia nada, vocês não cuidaram dessa terra, nós viemos e fizemos milagres"). Consideram qualquer um que não pense desta maneira como traidores e anti-sionistas. Acreditam num estilo de vida preso à terra e são a grande maioria, se não todos, profundamente religiosos e místicos. Servem exército e são normalmente os mais disciplinados soldados.
Há sobre eles a liderança política e religiosa. A liderança religiosa é a mais pura e menos cínica, em termos de maniqueismo, objetivo e método. Costumam realmente acreditar e suportar com alicerces fortes tudo que pregam. Arrisco cá a dizer que seus objetivos políticos são apenas de ordem de loby: adquirir poder para executar seus objetivos teológicos bastante práticos.
Quando Lieberman conseguiu sua fenomenal votação nas últimas eleições, todos começaram a elevar a voz chamando-no de radical. Expliquei em outro artigo que Lieberman late muito, mas não morde tanto. Que há mais perigosos que eles. Ei-los os mais perigosos que ele: a liderança politico-religiosa dos colonos.
São, a maioria deles adeptos da expulsão dos palestinos de tudo que foi um dia historicamente pertencente a Israel. Isso inclui parte da Jordânia, Egito, Síria e Líbano. Para eles não existe política internacional, acordos e o inimigo é qualquer um e qualquer coisa que se oponha a sua ideologia. E, recentemente, incluem aqui outros judeus também (a quem chamam não de inimigos, mas de traidores, o que, pela Torá, é tão ruim ou pior que um inimigo). Não escondem esses objetivos e recentemente não escondem tampouco seus métodos.
O que mais me assusta é o fato de seu perigo ser compreendido apenas dentro de Israel, pois a imprensa internacional faz muito pouco desses partidos.
A liderança puramente política dos radicais de direita são, em grande maioria cínicos sem ideologia real que usam este público votante como trampolim político. Um deles é o próprio Nataniahu, que usou discursos ambivalentes para se promover durante as eleições. Aceitou em suas linhas dentro do Likud vários conhecidos radicais (como Beny Begin, por exemplo, que agora, depois de eleito, não faz absolutamente nada, o que prova minha teoria) e promoveu uma delegitimação da existência de um estado palestino. E assim montou sua coalizão com todos os partidos radicais de direita.
Explicado o cenário, vamos agora ao ato primeiro da peça: Obama anuncia que este impasse vai ter que acabar. Os radicais de direita já o chamam de "negrinho". Os radicais de esquerda dizem "graças a Deus, vem alguém nos salvar de nós mesmos" e a população em geral segue assustada com a mudança - a população em geral, de qualquer país, não gosta muito de mudanças.
Vários políticos (de direita) tentam encobrir tudo com várias cortinas de fumaça. A primeira delas se chama Irã. A segunda é mais um novo mantra: "Peraí... nós temos que agir e sair das colônias, e os palestinos? Não têm que fazer nada? Não é justo!" - a qual Obama já respondeu claramente: "Vocês já tem um país. Os palestinos ainda não. É justo sim".
Segundo ato: Israel finge que faz algo, desmontando aqui e acolá alguns postos bem avançados e microscópicos. São todos reconstruídos em menos de um dia. A ação só serviu para enfuriar ainda mais os colonos radicais, que estão se organizando para o pior.
Terceiro ato: Ainda não veio. Mas Israel não vai poder se opor à politica do Obama. Simplesmente não pode. A atual colocação da política do país é contra tudo que se prevê numa democracia ocidental moderna, e só se sustenta com o apoio dos EUA e do governo Bush. Terminada a doutrina Bush, é politicamente insustentável, e qualquer político de meia pataca sabe disso. Ou seja: haverá retirada das colônias. E haverá guerra (vide o filminho de Amona, alí em cima). E vai ser feio.
O lado palestino também deverá sofrer do mesmo mal, já que o governo radical do Hamás também deverá sofrer mudanças. E, se paz vier depois de tanta violência, será uma pax romana. Silêncio de ódio e feridas cicatrizando muito lentamente, durante algumas boas gerações, se Israel, e/ou Palestina sobreviverem como entidades até lá.
Ainda na época em que Obama já eleito eu via as pesquisas aqui em Israel apontando para a vitória do Nataniahu e já previa problemas.
Pois problemas vieram, e são só uma pequena prévia do que está por vir.
A questão é que depois de anos de cozinhar gelo em água gelada, parece que o governo norte-americano decidiu levar a decisão de limpar a casa aqui no Oriente Médio a sério.
Coisa que tirou muita gente aqui do sério: "Como assim? Quer dizer, todas esses anos, sair dos territórios ocupados... Eles estavam falando a sério? Era para levar-los literalmente?"
Pelo jeito, houve um tempo que não - não era para levar isso literalmente. Era, por assim, dizer, uma sugestão.
A maioria dos esquerdistas - pessimistas por natureza e experiência, acha que agora vai ser a mesma coisa, só que os cães vão ladrar um pouco mais alto.
A maioria dos direitistas - pessimistas por natureza e experiência, acha que agora é à sério, e que estamos na bica de uma enorme tensão entre Israel e os EUA.
E entre Israel e seus radicais.
Durante todos estes 40 anos, a criação de várias colônias e cidades na Cisjordânia se tornaram um empecilho de ordem técnica. Eles atrapalham a vida da população local de palestinos e obviamente compromete a criação de um futuro estado palestino. Mas é um problema técnico: derruba-se esses assentamentos e seguimos viagem. O problema mesmo, ao longo desses 40 anos foi a criação de uma mentalidade expansionista radical que foi legitimizada tanto pelas autoridades religiosas como as autoridades governamentais.
Isso não se derruba assim com a mesma facilidade.
A primeira grande e séria tentativa de se retirar colonos foi na faixa de Gaza. Em termos logísticos, foi um sucesso. Em termos efetivos para demolir essa mentalidade, um fracasso retumbante. A subida do Hamas ao governo de Gaza, os frequentes ataques de foguetes daqueles lados são normalmente usados como desculpa e explicação ao mesmo tempo. O argumento passa a ser: "Não adianta nada. Nós damos a eles a chance de se tornarem um país sério, e eles estão mais preocupados em nos atacar que a ajudar a eles mesmos". E o segundo argumento, mais perigoso, pois por indução impossibilita qualquer plano de retirada: "Nós damos um dedo, mas eles querem a mão. Nós damos a mão, eles querem o braço. Eles nunca estarão satisfeitos".
Gaza eram 8000 colonos espalhados por uma região perfeitamente cercada. Cisjordânia não é bem assim.
Uma das imagens mais fortes de uma tentativa de retirar um dos postos avançados foi Amona. Amona era um ajuntamento de meia dúzia de casas que, se fosse em qualquer outra parte do mundo, passaria completamente despercebido. Todo o grupo de colonos recebeu a informação sobre a retirada e foi ajudar os colegas. O que se vê no vídeo abaixo é o que se deu:
É muito, e não é tudo. Todos os postos avançados destruídos nas última semana foram reconstruídos em poucas horas. E o grupo de radicais simplesmente se radicaliza mais e mais. Após a retirada de outra pequena vila, os colonos simplesmente atearam fogo aos campos palestinos na região. E prometeram que assim será a cada localidade retirada.
Absolutamente nada de concreto está sendo planejado pelo governo ainda, mas os colonos já fecharam a principal estrada de Israel - Tel-Aviv/Jerusalém - durante meia hora, como protesto.
De uma maneira geral, a divisão da população israelense entre direita e esquerda, na minha opinião se baseia em duas visões básicas. Os de esquerda não se iludem. Sabem que é muito difícil amansar radicais tanto de Israel quanto do mundo árabe, e que um país para os palestinos é, a médio prazo quase impossível. Mas acreditam que a situação pode melhorar com uma série de medidas e facilitações ao palestinos, e portanto votam em liberais de centro e centro-esquerda. Tenho às vezes a impressão de que a maioria deles não consegue conviver confortavelmente com a idéia de uma Palestina, vizinha a Israel, ou não conseguem realmente acreditar que esses dois países possam conviver em paz a curto e médio prazo. Mas o discurso de um político nesta direção vem a confortar. Especialmente quando há esta certeza de que muita coisa, mesmo, não vai mudar nos próximos anos.
Já os de direita simplesmente não gostam da situação atual, mas preferem o status quo a qualquer mudança - afinal, mudança está claramente associada a passos em direção a um país para os palestinos. Preferem, até mesmo, políticos que garantam medidas fortes contra radicais (e toda a população) palestinos em frente a ações de terror e foguetes.
Novamente, de uma maneira geral, tanto direitistas quanto esquerdistas não radicais não tem uma agenda clara a respeito da relação com o mundo árabe em geral e os palestinos em particular. Especulam a respeito de uma visão de "paz", que, se não é muito clara, pelo menos na mitologia popular, já inclui um país vizinho chamado Palestina. Uma espécie de consenso geral que se não é tangível, pelo menos é teoricamente concebível pela maioria.
Essa é a grandessísima maioria da população em Israel, composta de moderados, seja de esquerda ou direita.
Os radicais de esquerda, pelo menos dentro deste artigo, dispensam explicações e pormenores. Vamos aos radicais de direita.
Existem vários tipos de radicais de direita. Na base da pirâmide estão os colonos radicais. São os que sustentam com ações toda a gama de pensamento teórico e teológico a respeito da relação com os palestinos, povos árabes e a terra. Eles se baseiam em duas importantes mentalidades. A primeira é a do "Halutz", ou pioneirismo dos velhos tempos de Ben-Gurion. É uma forma de nostalgia num mundo já tão menos radical e romântico do que naquela época. A outra é de base teológica: esta terra pertence aos judeus. Por motivos religiosos, históricos e, por que não? Por usucapião (seguindo o chavão "quando aqui chegamos não havia nada, vocês não cuidaram dessa terra, nós viemos e fizemos milagres"). Consideram qualquer um que não pense desta maneira como traidores e anti-sionistas. Acreditam num estilo de vida preso à terra e são a grande maioria, se não todos, profundamente religiosos e místicos. Servem exército e são normalmente os mais disciplinados soldados.
Há sobre eles a liderança política e religiosa. A liderança religiosa é a mais pura e menos cínica, em termos de maniqueismo, objetivo e método. Costumam realmente acreditar e suportar com alicerces fortes tudo que pregam. Arrisco cá a dizer que seus objetivos políticos são apenas de ordem de loby: adquirir poder para executar seus objetivos teológicos bastante práticos.
Quando Lieberman conseguiu sua fenomenal votação nas últimas eleições, todos começaram a elevar a voz chamando-no de radical. Expliquei em outro artigo que Lieberman late muito, mas não morde tanto. Que há mais perigosos que eles. Ei-los os mais perigosos que ele: a liderança politico-religiosa dos colonos.
São, a maioria deles adeptos da expulsão dos palestinos de tudo que foi um dia historicamente pertencente a Israel. Isso inclui parte da Jordânia, Egito, Síria e Líbano. Para eles não existe política internacional, acordos e o inimigo é qualquer um e qualquer coisa que se oponha a sua ideologia. E, recentemente, incluem aqui outros judeus também (a quem chamam não de inimigos, mas de traidores, o que, pela Torá, é tão ruim ou pior que um inimigo). Não escondem esses objetivos e recentemente não escondem tampouco seus métodos.
O que mais me assusta é o fato de seu perigo ser compreendido apenas dentro de Israel, pois a imprensa internacional faz muito pouco desses partidos.
A liderança puramente política dos radicais de direita são, em grande maioria cínicos sem ideologia real que usam este público votante como trampolim político. Um deles é o próprio Nataniahu, que usou discursos ambivalentes para se promover durante as eleições. Aceitou em suas linhas dentro do Likud vários conhecidos radicais (como Beny Begin, por exemplo, que agora, depois de eleito, não faz absolutamente nada, o que prova minha teoria) e promoveu uma delegitimação da existência de um estado palestino. E assim montou sua coalizão com todos os partidos radicais de direita.
Explicado o cenário, vamos agora ao ato primeiro da peça: Obama anuncia que este impasse vai ter que acabar. Os radicais de direita já o chamam de "negrinho". Os radicais de esquerda dizem "graças a Deus, vem alguém nos salvar de nós mesmos" e a população em geral segue assustada com a mudança - a população em geral, de qualquer país, não gosta muito de mudanças.
Vários políticos (de direita) tentam encobrir tudo com várias cortinas de fumaça. A primeira delas se chama Irã. A segunda é mais um novo mantra: "Peraí... nós temos que agir e sair das colônias, e os palestinos? Não têm que fazer nada? Não é justo!" - a qual Obama já respondeu claramente: "Vocês já tem um país. Os palestinos ainda não. É justo sim".
Segundo ato: Israel finge que faz algo, desmontando aqui e acolá alguns postos bem avançados e microscópicos. São todos reconstruídos em menos de um dia. A ação só serviu para enfuriar ainda mais os colonos radicais, que estão se organizando para o pior.
Terceiro ato: Ainda não veio. Mas Israel não vai poder se opor à politica do Obama. Simplesmente não pode. A atual colocação da política do país é contra tudo que se prevê numa democracia ocidental moderna, e só se sustenta com o apoio dos EUA e do governo Bush. Terminada a doutrina Bush, é politicamente insustentável, e qualquer político de meia pataca sabe disso. Ou seja: haverá retirada das colônias. E haverá guerra (vide o filminho de Amona, alí em cima). E vai ser feio.
O lado palestino também deverá sofrer do mesmo mal, já que o governo radical do Hamás também deverá sofrer mudanças. E, se paz vier depois de tanta violência, será uma pax romana. Silêncio de ódio e feridas cicatrizando muito lentamente, durante algumas boas gerações, se Israel, e/ou Palestina sobreviverem como entidades até lá.
Sexta-feira, Maio 29, 2009
A discussão é feia, mas não é séria.
Vi uma linda discussão no canal 10 entre Yaaron London e o parlamentar Zvulun Orlev a respeito da tal da lei contra a comemoração do Nakba.
A lei, planejada pelo Yisrael Bethenu, partido do Ivet Lieberman (Ivet é o nome de nascença dele - ele odeia ser chamado assim, e é por isso que uso esse nome :P), diz basicamente que é proibida a manifestação (pública ou privada) com conotações negativas a respeito da criação do Estado de Israel. A lógica é a seguinte: quem vive em um determinado país não deveria ser contra a criação do mesmo. Isso não acontece em parte alguma do mundo.
A discussão que citei foi a seguinte. Yaaron London dizia: "Espere aí, o que vocês querem na verdade é proibir a expressão pessoal. Isso é censura! É uma lei contra as liberdades individuais"
Zvulun Orlev seguia com um mantra de "Queremos caracterizar este país como sendo judaico. No momento em que alguém apresenta-se como sendo contra essa caracterização, está indo contra o próprio fundamento desse país!"
Yaron London começou a ficar cada vez mais nervoso e exigir respostas fora desse mantra: "Mas o senhor quer protocolar em lei a proibição de manifestação! Cada qual com sua opinião! Promulgar uma lei não vai mudar a opinião das pessoas! Daqui a pouco vocês vão querer proibir livros de escritores palestinos e até mesmo judeus questionando o assunto! Não tem limites!"
"Você é contra a caracterização judaica de Israel?" Perguntou o parlamentar Orlev.
"Claro que sou! Mas não por lei! Isso deveria ser um trabalho educacional e democrático, não ditatorial e arbitrário!" Vale lembrar que Yaaron London é considerado bastante direitista e conservador nos meios de comunicação.
Ao seguir a conversa, Zvulun Orlev quis convencer o Yaaron London de que, na verdade, o que se estava fazendo era criando-se uma lei que evitasse que pessoas desenvolvessem um sistema que pudesse cogitar a legitimidade da mera existência de Israel como país.
Seus argumentos foram tão pueris que só deixou o Yaaron London mais e mais nervoso. Até um momento em que acabou o tempo e ele chutou o cara do estúdio com um "muito obrigado ao parlamentar Orlev".
A discussão a este nível entre a população é visível. Nem sequer meus amigos mais religiosos conseguem se manter incólumes frente à peitação dos neo-colonos sobre a lei, sobre o exército, sobre a politica internacional e sobre a vontade da maioria, quando seguem a reerguer outposts nos territórios ocupados.
Pessoalmente acho bom esse tipo de atrito: tira um pouco do verniz de politicamente correto que populações deste tipo carregam em suas justificativas e abre o jogo: "Nós estamos aqui para salvar o caráter judaico de Israel, mesmo que seja contra a lei do país, mesmo que seja contra a ética e a moral dos nossos tempos, mesmo que seja contra a vontade da maioria dos habitantes deste lugar, mesmo que seja a sangue".
O que me impressiona é a passividade dos que não pensam assim (gente pacata e "bundona", como eu), que não toma nenhuma atitude prática. A Tzipi Livni até que tentou dar umas cutucadas e entrevistas, mas não teve a repercussão que merecia neste caso.
Como outras, essa é uma história de vai-e-volta. Não é a primeira nem vai ser a última vez em que leis deste calibre são inseridas na agenda da Knesset. Esse tipo de atitude é desenvolvida para promover um político, um partido e/ou, como neste caso, promover um tipo específico de política.
Em tempos de Obama, a direita religiosa ultra-nacionalista em Israel se encontra em sérios apuros para justificar uma série de atitudes que não podem ser justificadas em uma sociedade ocidental moderna. E cada ponto que conseguirem comprar barato, está valendo. Pelo menos é assim que pensam eles. Não é uma questão de democracia. Não é uma questão de legislação. Neste caso, para boa parte deste pessoal, é uma questão de puro medo e histeria religiosa.
A lei, planejada pelo Yisrael Bethenu, partido do Ivet Lieberman (Ivet é o nome de nascença dele - ele odeia ser chamado assim, e é por isso que uso esse nome :P), diz basicamente que é proibida a manifestação (pública ou privada) com conotações negativas a respeito da criação do Estado de Israel. A lógica é a seguinte: quem vive em um determinado país não deveria ser contra a criação do mesmo. Isso não acontece em parte alguma do mundo.
A discussão que citei foi a seguinte. Yaaron London dizia: "Espere aí, o que vocês querem na verdade é proibir a expressão pessoal. Isso é censura! É uma lei contra as liberdades individuais"
Zvulun Orlev seguia com um mantra de "Queremos caracterizar este país como sendo judaico. No momento em que alguém apresenta-se como sendo contra essa caracterização, está indo contra o próprio fundamento desse país!"
Yaron London começou a ficar cada vez mais nervoso e exigir respostas fora desse mantra: "Mas o senhor quer protocolar em lei a proibição de manifestação! Cada qual com sua opinião! Promulgar uma lei não vai mudar a opinião das pessoas! Daqui a pouco vocês vão querer proibir livros de escritores palestinos e até mesmo judeus questionando o assunto! Não tem limites!"
"Você é contra a caracterização judaica de Israel?" Perguntou o parlamentar Orlev.
"Claro que sou! Mas não por lei! Isso deveria ser um trabalho educacional e democrático, não ditatorial e arbitrário!" Vale lembrar que Yaaron London é considerado bastante direitista e conservador nos meios de comunicação.
Ao seguir a conversa, Zvulun Orlev quis convencer o Yaaron London de que, na verdade, o que se estava fazendo era criando-se uma lei que evitasse que pessoas desenvolvessem um sistema que pudesse cogitar a legitimidade da mera existência de Israel como país.
Seus argumentos foram tão pueris que só deixou o Yaaron London mais e mais nervoso. Até um momento em que acabou o tempo e ele chutou o cara do estúdio com um "muito obrigado ao parlamentar Orlev".
A discussão a este nível entre a população é visível. Nem sequer meus amigos mais religiosos conseguem se manter incólumes frente à peitação dos neo-colonos sobre a lei, sobre o exército, sobre a politica internacional e sobre a vontade da maioria, quando seguem a reerguer outposts nos territórios ocupados.
Pessoalmente acho bom esse tipo de atrito: tira um pouco do verniz de politicamente correto que populações deste tipo carregam em suas justificativas e abre o jogo: "Nós estamos aqui para salvar o caráter judaico de Israel, mesmo que seja contra a lei do país, mesmo que seja contra a ética e a moral dos nossos tempos, mesmo que seja contra a vontade da maioria dos habitantes deste lugar, mesmo que seja a sangue".
O que me impressiona é a passividade dos que não pensam assim (gente pacata e "bundona", como eu), que não toma nenhuma atitude prática. A Tzipi Livni até que tentou dar umas cutucadas e entrevistas, mas não teve a repercussão que merecia neste caso.
Como outras, essa é uma história de vai-e-volta. Não é a primeira nem vai ser a última vez em que leis deste calibre são inseridas na agenda da Knesset. Esse tipo de atitude é desenvolvida para promover um político, um partido e/ou, como neste caso, promover um tipo específico de política.
Em tempos de Obama, a direita religiosa ultra-nacionalista em Israel se encontra em sérios apuros para justificar uma série de atitudes que não podem ser justificadas em uma sociedade ocidental moderna. E cada ponto que conseguirem comprar barato, está valendo. Pelo menos é assim que pensam eles. Não é uma questão de democracia. Não é uma questão de legislação. Neste caso, para boa parte deste pessoal, é uma questão de puro medo e histeria religiosa.
Segunda-feira, Maio 25, 2009
Os mistérios dos intestinos de ovelha.
- Você tem intestino de ovelha? - Eu perguntei lá por de cima de um freezer para o velhinho marroquino sentado em seu açougue especializado em carne ovina, no Shuk Ha'Carmel.
Ele fez cara de quem não entendeu bem, se curvou para frente na sua cadeira lá no fundo do açougue e eu repeti a pergunta. Era um sujeito nem assim tão velho na verdade, com cabelo de escovinha meio grisalho, pele escura e um "bigodinho de cobrador" branco.
- Mas prá que você quer intestino de ovelha?!
Vai explicar agora! Vou dizer que sou estudante de desenho industrial, que estou fazendo um projeto, que parte importante da matéria prima que eu decidi usar para dar o toque orgânico que eu quero é intestino. E que intestino de vaca tem o calibre grande demais para o que eu quero.
É bem provável que se eu dissesse alguma coisa assim ele ia me mandar procurar minha turma, parar de inventar moda e ir estudar alguma coisa mais útil. Já tive experiências deste tipo quando fui comprar, por exemplo, cordões de sapato. Daí que eu respondi:
- Vou fazer lingüiça (com trema, por favor!).
- Ahn! Alguma coisa que você leu na internet? - ele ainda me provocou, com sotaque que só os velhos marroquinos em Israel têm.
- Não! Receita de família. Coisa que minha avó costumava fazer. Tem que ser de calibre menor que intestinos de boi, para ficar bom.
Mentira, claro. Minha vó nunca foi de encher lingüiça. Nem em termos, nem literalmente.
Infelizmente a mentira o interessou. E eu, diabos, que só queria 250 gramas de intestino de ovelha limpos. Só isso. Suando para passar despercebido pela sabatina do velhinho que parecia se divertir com a situação.
- E você sabe limpar intestino?
Sai dessa agora, seu Gabriel. Duas semanas brincando com intestinos de vaca que eu adquirira antes (na mesma feira livre, mas no Açougue do Chaim, mais para cima) me ensinaram muito. O que eu sei de cozinha artesanal é pouco, se não nada. E o que eu cheguei a ver no Youtube a respeito não me tornam um expert no assunto. Mas respirei fundo e tentei minha sorte:
- Mas é claro! Ajudei muito minha avó a fazer isso! Têm que virar as tripas do avesso, colocar em água por 24 horas, e depois raspar.
- É isso aí. - ele sorriu aprovando. - Virar do avesso. É uma pena, mas eu não tenho. Quem sabe no Shuk do Shchunat Ha'Tikwa (Bairro da Esperança... parece nome de favela, e não está muito longe de ser uma - e longe prá diabos). Aqui nas redondezas você não vai achar.
Depois de uma calorosa despedida (afinal, eu tinha sido aprovado com louvor ao questionário do velhinho) me debandei dali para tentar minha sorte com intestino de porco.
Ele fez cara de quem não entendeu bem, se curvou para frente na sua cadeira lá no fundo do açougue e eu repeti a pergunta. Era um sujeito nem assim tão velho na verdade, com cabelo de escovinha meio grisalho, pele escura e um "bigodinho de cobrador" branco.
- Mas prá que você quer intestino de ovelha?!
Vai explicar agora! Vou dizer que sou estudante de desenho industrial, que estou fazendo um projeto, que parte importante da matéria prima que eu decidi usar para dar o toque orgânico que eu quero é intestino. E que intestino de vaca tem o calibre grande demais para o que eu quero.
É bem provável que se eu dissesse alguma coisa assim ele ia me mandar procurar minha turma, parar de inventar moda e ir estudar alguma coisa mais útil. Já tive experiências deste tipo quando fui comprar, por exemplo, cordões de sapato. Daí que eu respondi:
- Vou fazer lingüiça (com trema, por favor!).
- Ahn! Alguma coisa que você leu na internet? - ele ainda me provocou, com sotaque que só os velhos marroquinos em Israel têm.
- Não! Receita de família. Coisa que minha avó costumava fazer. Tem que ser de calibre menor que intestinos de boi, para ficar bom.
Mentira, claro. Minha vó nunca foi de encher lingüiça. Nem em termos, nem literalmente.
Infelizmente a mentira o interessou. E eu, diabos, que só queria 250 gramas de intestino de ovelha limpos. Só isso. Suando para passar despercebido pela sabatina do velhinho que parecia se divertir com a situação.
- E você sabe limpar intestino?
Sai dessa agora, seu Gabriel. Duas semanas brincando com intestinos de vaca que eu adquirira antes (na mesma feira livre, mas no Açougue do Chaim, mais para cima) me ensinaram muito. O que eu sei de cozinha artesanal é pouco, se não nada. E o que eu cheguei a ver no Youtube a respeito não me tornam um expert no assunto. Mas respirei fundo e tentei minha sorte:
- Mas é claro! Ajudei muito minha avó a fazer isso! Têm que virar as tripas do avesso, colocar em água por 24 horas, e depois raspar.
- É isso aí. - ele sorriu aprovando. - Virar do avesso. É uma pena, mas eu não tenho. Quem sabe no Shuk do Shchunat Ha'Tikwa (Bairro da Esperança... parece nome de favela, e não está muito longe de ser uma - e longe prá diabos). Aqui nas redondezas você não vai achar.
Depois de uma calorosa despedida (afinal, eu tinha sido aprovado com louvor ao questionário do velhinho) me debandei dali para tentar minha sorte com intestino de porco.
Terça-feira, Maio 19, 2009
Perguntas e respostas e uma ode à futilidade
Uma das minhas capacidades mais inúteis e impressionantes é a de escrever sobre absolutamente coisa nenhuma com a mesma pretensão de um apóstolo registrando uma revelação profunda. Bagganah Namarikkah, que nos meus tempos de guri me revelou muita coisa importante sobre a a questão de ser profundamente inútil, apresentou-me ao tenebroso paradoxo de que o tema, em si, não tem qualquer importância. O que importa é sair escrevendo. E escrever bem.
Então, vamos lá, QA:
Q: O que é uma Pita?
A: É o famoso pão sírio. Um pão em forma de bolso. O legal é que dá para colocar absolutamente qualquer coisa ali dentro, desde faláfel, até Nutella. Tinha um amigo que punha cheetos.
Q: Qual é a vantagem de uma Pita sobre outros tipos de pães?
A: Dá para encher bastante que só vai começar a escorrer pelos dedos depois da pita estar bem úmida e esfarelada pelo manuseio.
Q: Então? Dá para comer Hamburger dentro de uma Pita?
A: Putz! Que boa ideia! Nunca tinha pensado nisso! Vou tentar.
Q: E tem desvantagens?
A: Engorda pacas, e se não for fresca (e em geral os israelenses clássicos colocam sacos e sacos de pita no freezer) tem gosto de... como dizer? Meia marrom?
Q: Qual é gosto de meia marrom?
A: É o gosto que tem uma Pita guardada no freezer.
Q: Por que você se refere à pita como pita, e não como pão sírio?
A: Porque esse é o nome da paradinha. Além do mais, com essa nova regra de hifenização, já não tenho idéia de como se escreve pão sírio (se é pão-sírio, pãossírio ou sei lá). Fico com o nome hebraico.
Q: O que é típico de se comer com pita?
A: Humus, embora eu tenha certeza de que Nutella anda mais alto no ibope nos últimos anos.
Q: O que é humus?
A: Grão de Bico. É uma leguminosa da família das Fabaceas, parecido com uma ervilha grande e bege. É cozido e servido amassado em forma de uma pasta, com Tehina, óleo de oliva e Zattar.
Q: O que é tehina?
A: Pasta de gerjelim. Agora você vai perguntar o que é Zattar, né?
Q: Ehn.... O que é Zattar?
A: Uma mistura de um monte de ervinha, oregano, menta e coisas que eu prefiro não saber que estão lá.
Q: É perigoso morar em Israel?
A: Pode ser sim. Existem várias situações em que estar em Israel pode ser uma coisa terrivelmente perigosa.
Q: Por exemplo?
A: Falar mal de pita para um israelense. Pode vir a ser perigoso. Ou neste caso, falar mal de humus. Humus é na verdade a religião oficial de Israel, ao contrário do que se prega por aí.
Q: Eu quis dizer... perigo de vida!
A: Eu também!
Q: O que mais pode ser perigoso?
A: Andar na rua. De carro, ou pior, à pé. O povo aqui dirige muito, muito mal.
Q: E aquelas coisas violentas que se vê nos jornais por aí? Não é perigoso?
A: É sim. É um perigo ficar vendo esses jornais! Se informe única e exclusivamente por meios de comunicações autorizados pelo ministério da saúde.
Q: O que é hamsin?
A: Hamsin é um evento atmosférico dos mais desagradáveis. É como uma sauna seca (seca mesmo- sauna mesmo), com a mesma temperatura, mesma quantidade de vento, só que com uma luminosidade do sol que até mesmo óculos de soldar não são suficiente para conseguir olhar para frente. E toneladas e toneladas de pó no ar. Visibilidade não passa de algumas centenas de metros - às vezes não passa de um metro.
Q: Acontece sempre?
A: Não. Só quando o ar-condicionado estraga, ou quando a praia está interditada ou quando se tem que trabalhar ao ar livre.
Q: O que é Sharav?
A: Mesma coisa que Hamsin, mas em hebraico.
Q: Você vê sempre camelos andando pela rua?
A: Não. Mas já vi alguns andando em manadas perto do meu apartamento em Beer-Sheva, nos limites da cidade. E já ví (lá em Beer-Sheva, evidente - só em Beer-Sheva acontecem essas coisas) beduínos andando de mula no centro da cidade, literalmente empacando o trânsito.
Q: O que você acha da política em Israel?
A: Complicada. Muito mais do que parece ser quando vista de fora. Mas é mais fácil para jornalistas pagarem suas contas dando notícia óbvia e ululante, já que uma análise completa dependeria de ler jornais em hebraico e entrevistar gente de 2o e 3o escalões. E daí teriam que trabalhar... E seria exigir demais.
Q: Você tem alguma coisa contra jornalistas?
A: Que jornalistas? Os que pensam e os que fazem seu trabalho? Não. Nenhum dos doze deles.
Q: Você já esteve em algum lugar sagrado?
A: Quase todos - me falta ainda o centro atômico em Dimona.
Q: Sentiu alguma coisa?
A: Sim. Senti que as placas tectônicas vão mover tudo aquilo um dia - assim que "lugar" sagrado é uma definição absurdamente mesquinha e relevante apenas pelo fato das vidas humanas serem tão curtas.
Q: Quem foi Bagganah Namarikkah?
A: Um dos alter-egos do Otacílio De'Assunção Barros (Em verdade, em verdade vos digo), editor do Mad. Adorava ele!
Então, vamos lá, QA:
Q: O que é uma Pita?
A: É o famoso pão sírio. Um pão em forma de bolso. O legal é que dá para colocar absolutamente qualquer coisa ali dentro, desde faláfel, até Nutella. Tinha um amigo que punha cheetos.
Q: Qual é a vantagem de uma Pita sobre outros tipos de pães?
A: Dá para encher bastante que só vai começar a escorrer pelos dedos depois da pita estar bem úmida e esfarelada pelo manuseio.
Q: Então? Dá para comer Hamburger dentro de uma Pita?
A: Putz! Que boa ideia! Nunca tinha pensado nisso! Vou tentar.
Q: E tem desvantagens?
A: Engorda pacas, e se não for fresca (e em geral os israelenses clássicos colocam sacos e sacos de pita no freezer) tem gosto de... como dizer? Meia marrom?
Q: Qual é gosto de meia marrom?
A: É o gosto que tem uma Pita guardada no freezer.
Q: Por que você se refere à pita como pita, e não como pão sírio?
A: Porque esse é o nome da paradinha. Além do mais, com essa nova regra de hifenização, já não tenho idéia de como se escreve pão sírio (se é pão-sírio, pãossírio ou sei lá). Fico com o nome hebraico.
Q: O que é típico de se comer com pita?
A: Humus, embora eu tenha certeza de que Nutella anda mais alto no ibope nos últimos anos.
Q: O que é humus?
A: Grão de Bico. É uma leguminosa da família das Fabaceas, parecido com uma ervilha grande e bege. É cozido e servido amassado em forma de uma pasta, com Tehina, óleo de oliva e Zattar.
Q: O que é tehina?
A: Pasta de gerjelim. Agora você vai perguntar o que é Zattar, né?
Q: Ehn.... O que é Zattar?
A: Uma mistura de um monte de ervinha, oregano, menta e coisas que eu prefiro não saber que estão lá.
Q: É perigoso morar em Israel?
A: Pode ser sim. Existem várias situações em que estar em Israel pode ser uma coisa terrivelmente perigosa.
Q: Por exemplo?
A: Falar mal de pita para um israelense. Pode vir a ser perigoso. Ou neste caso, falar mal de humus. Humus é na verdade a religião oficial de Israel, ao contrário do que se prega por aí.
Q: Eu quis dizer... perigo de vida!
A: Eu também!
Q: O que mais pode ser perigoso?
A: Andar na rua. De carro, ou pior, à pé. O povo aqui dirige muito, muito mal.
Q: E aquelas coisas violentas que se vê nos jornais por aí? Não é perigoso?
A: É sim. É um perigo ficar vendo esses jornais! Se informe única e exclusivamente por meios de comunicações autorizados pelo ministério da saúde.
Q: O que é hamsin?
A: Hamsin é um evento atmosférico dos mais desagradáveis. É como uma sauna seca (seca mesmo- sauna mesmo), com a mesma temperatura, mesma quantidade de vento, só que com uma luminosidade do sol que até mesmo óculos de soldar não são suficiente para conseguir olhar para frente. E toneladas e toneladas de pó no ar. Visibilidade não passa de algumas centenas de metros - às vezes não passa de um metro.
Q: Acontece sempre?
A: Não. Só quando o ar-condicionado estraga, ou quando a praia está interditada ou quando se tem que trabalhar ao ar livre.
Q: O que é Sharav?
A: Mesma coisa que Hamsin, mas em hebraico.
Q: Você vê sempre camelos andando pela rua?
A: Não. Mas já vi alguns andando em manadas perto do meu apartamento em Beer-Sheva, nos limites da cidade. E já ví (lá em Beer-Sheva, evidente - só em Beer-Sheva acontecem essas coisas) beduínos andando de mula no centro da cidade, literalmente empacando o trânsito.
Q: O que você acha da política em Israel?
A: Complicada. Muito mais do que parece ser quando vista de fora. Mas é mais fácil para jornalistas pagarem suas contas dando notícia óbvia e ululante, já que uma análise completa dependeria de ler jornais em hebraico e entrevistar gente de 2o e 3o escalões. E daí teriam que trabalhar... E seria exigir demais.
Q: Você tem alguma coisa contra jornalistas?
A: Que jornalistas? Os que pensam e os que fazem seu trabalho? Não. Nenhum dos doze deles.
Q: Você já esteve em algum lugar sagrado?
A: Quase todos - me falta ainda o centro atômico em Dimona.
Q: Sentiu alguma coisa?
A: Sim. Senti que as placas tectônicas vão mover tudo aquilo um dia - assim que "lugar" sagrado é uma definição absurdamente mesquinha e relevante apenas pelo fato das vidas humanas serem tão curtas.
Q: Quem foi Bagganah Namarikkah?
A: Um dos alter-egos do Otacílio De'Assunção Barros (Em verdade, em verdade vos digo), editor do Mad. Adorava ele!
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