domingo, julho 12, 2009

Deste lado do muro ninguém dá bola para eles.

Não tenho televisão, mas mesmo sem, ouvi o barulho tremendo da última propaganda da operadora de celular Cellcom. E o tremendo barulho foi imediato, em alto volume, e com razão.

Aqui vai a produção, que dispensa tradução, a não ser a frase final: "O que queremos, afinal de contas, é um pouco de alegria, isso é tudo".



O blog Dimi's Note coloca a coisa em sua devida proporção:

"(...)este comercial de um minuto diz muito a respeito de como mainstream de Israel gosta de se ver e aos palestinos:

  • Nossos soldados são todos decentes, esportivos, sem ódio - apenas profissionais.
  • O muro é uma parte normal da paisagem política - é ou neutra, ou muito positiva; ate mesmo o graffiti de protesto que adorna boa parte da do verdadeiro muro foi trocado neste vídeo por típicos rabiscos militares (por exemplo, "brigada C esteve aqui").
  • Palestinos não existem. Quer dizer, existem, mas não sabemos exatamente qual sua aparência. E certamente eles não tem soldadas tão bonitas quanto as nossas. Além do que, mostrar palestinos faria varias pessoas repelirem o comercial.
  • Os invisíveis palestinos terríveis-demais-para-serem-mostrados-no-horário-nobre, estão perfeitamente felizes de jogar com pessoas que os encarceiraram (note como o muro faz uma curva, dando a impressão de ser um pequeno cercadinho, ao invés de um gigantesco projeto engasgado num país inteiro.) Nós acreditamos tanto que eles devem estar contentes de jogar conosco, que quando eles não devolvem a bola (a bola deles), temos todo direito de gritar indignados "Nu?!" ("E ai?!")"

O engraçadíssimo blog Half and Half faz uma comparação com Contatos Imediatos do Terceiro Grau, e logo em seguida uma paródia de outros scripts tão ruins quanto. E o pessoal já começou a se indignar publicamente no Facebook, como publicou o Ha'Aretz.

Não me incomoda o comercial em si. Ele apenas me dá uma terrível vergonha alheia. O que me incomoda de verdade, é que boa parte da população israelense realmente acredita na "paz" entre aspas deste mundo cor-de-rosa e kitsch. Me incomoda que uma empresa tão grande e importante, ironicamente dirigida por um ex diretor do Mossad, tenha a incompetência suprema de usar este sonho cor-de-rosa e kitsch para vender uma porcaria de um conteúdo multimedia (que será vendido em sua maioria para adolescentes que sonham em entrar para o exército e metralhar quantos terroristas for possível)."

Me incomoda que este sonho cor-de-rosa e kitsch de paz não corroba com absolutamente qualquer aspecto da realidade. E o pior? Não corroba em absoluto com o aspecto mais importante de todos: os palestinos do outro lado do muro, e o próprio muro em si.
Desculpe, esse não é o pior. O pior, é como cita o Dimi's Notes na sequência:

"Quanto mais penso sobre este comercial, do ponto de vista de um ativista, mais triste ele me parece. Comerciais são direcionados para o mercado em geral, e como este, são cápsulas do tempo inestimáveis, representando os humores da população com muito mais fidelidade que qualquer arte. Eles não podem se permitir perder nem um único cliente - portanto documentam não só o que a sociedade realmente é, mas o que ela realmente acredita ser, o que pode ser tão decisivo quanto fatos e números."

9 comentários:

ana maria disse...

Achei o comercial de uma insensibilidade inacreditável. A tentativa de retratar uma situação triste como se fosse uma realidade normal e até mesmo divertida é bisonha.
Nossa, péssimo gosto.

paulista1950 disse...

Gabriel,
Eu já havia lido sobre este comercial no Haaretz e achei a importância dada a ele idiota, mas, obviamente, uma idiotia com propósito, o de sempre.

Eu devo ser muito burro, pois não consigo enxergar todo o racismo (?) e tudo o mais que alguns conseguem.

Por outro lado eu vejo coisas que eles não veem, por exemplo, como absolutamente TUDO feito em e por Israel é pássivel de crítica, e tudo que é feito contra é justificável, quando não louvável.

Conheço um pouco das suas opiniões pelo blog do Gustavo, mas sinceramente, não esperava seu apoio a esta imbecilidade.

paulista1950 disse...

Não resisti e vou comentar o que voce chamou de colocar a coisa em "sua devida proporção" (!)

* Nossos soldados são todos decentes, esportivos, sem ódio - apenas profissionais.

Um comercial deveria fazer o que? Mostrar TODOS os soldados israelenses e retratar TODAS as suas atividades? Durar 3,4 anos talvez?

* Palestinos não existem. Quer dizer, existem, mas não sabemos exatamente qual sua aparência.
Assim como não existem escandinavos, negros, hassidicos, crianças, velhos, coqueiros, neve, aviões, navios, enfim, nada do que não aparece no comercial.

"E certamente eles não tem soldadas tão bonitas quanto as nossas"
Conclusão do Dimi, que ele sim demonstra racismo.

* Os invisíveis palestinos terríveis-demais-para-serem-mostrados-no-horário-nobre,
Idem, só que mais claramente

E por falar nisso, eu também não apareço no comercial! Devo ser terrível-demais-para.....
Fazer o que.

אר'נה disse...

Tambem fiquei chocada com o comercial. De inicio ate pensei que fosse um comercial feito em outro lugar e passado aqui em Israel, mas quando vi que era da Cellcom sinceramente fiquei perturbada. Achei que foi o famoso "Joselito" do Hermes e Renato quem fez o comercial e a empresa comprou. Comentei comigo mesma que se fosse um jogo de verdade com os palestinos ao inves de voltar a bola, voltaria uma bomba. Embora eu seja completamente anti-Palestina, achei o comercial de mau gosto, pois poe o conflito como uma piada, o que esta muito longe de ser a realidade. Acho os israelenses tao criativos, mas essa foi uma ideia bem ruinzinha.

paulista1950 disse...

Proponho um joguinho. Indiquem um comercial qualquer e eu "provo" que ele é preconceituoso.
Enxergamos o que queremos enxergar.

Gabriel Paciornik disse...

paulista1950, eu procurei 3 vezes para ver se eu achava em algum lugar no meu texto a palavra racismo e seus derivados, ou sequer alguma coisa que indique que eu acuso o comercial de racista.

Nao achei. Nem no meu texto, nem dos blogs citados. Nem acusei a propaganda de racista nem em lugar algum insinuei isso. Mesmo porque nao eh minha acusacao.

E nao, voce nao esta no comercial. Mas tua presenca nao foi implicita por meios escusos tampouco.

paulista1950 disse...

Gabriel, voce tem razão e eu peço desculpas por não ter sido claro. Quem chama o comercial de racista são alguns leitores comentando o artigo do Haaretz e não voce.
O artigo cita um membro do Knesset que pediu a retirada da propaganda.

Quanto ao blog que voce cita, o do Dimi, ele não fala explicitamente em racismo, mas o título que deu “Playing with the animals in the zoo…” é muito pior do que isso. Segundo ele, e só na cabeça dele, os soldados consideram quem está do lado de lá do muro animais.

José Antonio disse...

Gabriel, juro que não vi no vídeo o que vc. fala. Será que é a nossa diferença de idade? Eu sou sionista desde a década de 50. Achei que mostra uma integração dos soldados com os palestinos sómente. Vc. sabe que o muro é necessário. Será que estaria vivo sem ele? Eu acho que os israelenses jovens já estão se convencendo que os antissemitas estão falando a verdade. Israel era melhor com os pioneiros. Eles trouxeram Israel até aqui, se não foi possível a paz a culpa é maior do outro lado. O vídeo seria tendencioso se os palestinos ao invés de bola devolvessem uma bomba. Espero não ter dado a idéia.

Gabriel Paciornik disse...

José Antonio, não é uma questão de idade. Comentários contra o cinismo do filme foram apresentados por gente como, por exemplo, Yaaron London, que tem 69 anos de idade. E ele é nascido aqui. Vi o comentário dele dois dias depois de ter postado em meu blog.

O comercial mostra uma cena bonita? Sim. Mas é uma cena bonita que esconde todo o horror da situação. Como expliquei no post imediatamente depois deste daqui, brincar com cenas de paz esterilizando a realidade (ou seja, apagando da imagem toda e qualquer sujeira que Israel tenha criado), é como esconder o sol com a peneira.

Nunca discuti a necessidade da existência do muro. Sobre o muro discordo de diversos fatores. Inclusive o traçado. Mas não sua existência.

Se alguns jovens (e em Israel, grande parte dos não-assim-tão-jovens) estão dando razão a o que alguns antissemitas dizem, isso tem dois motivos. O primeiro é que não importa de onde venha uma verdade. Mesmo que seja do seu inimigo - verdades são verdades. Em segundo lugar, porque para mantermos esse país vivo e saudável, é necessário parar de achar que toda ação violenta contra o outro lado é benéfica.

O mundo desde o tempo dos pioneiros mudou. Aprendemos hoje que eles erraram tanto quanto acertaram. Hoje, ao invés de copiarmos os acertos, duplicamos seus erros.

paulista1950, muitos soldados - infelizmente muito mais do que seria saudável - acham realmente que quem está do outro lado são animais.