Um dos motivos pelos quais não haverá paz, nem sequer acordo entre Israel e palestinos nem em breve, nem a médio prazo é por causa da retórica da população. E a população aqui inclui israelenses, inclui palestinos e, principalmente, mais que qualquer um, cidadãos do resto do mundo.
Explico antes a importância da retórica israelense: Algo como dois dias depois do ataque vejo pipocando pelo país manifestações de apoio ao exército e aos soldados que participaram da ação. E aí pensei "bingo. Ponto pro Bibi".
O motivo é o seguinte: O exército vai ter sempre o incondicional apoio da população. Moral dos soldados é assunto sagrado em Israel, sem falar de que os soldados não são um grupo a parte, os soldados são a população. Quase todos fazem exército (mulheres inclusive), o que significa que os pais tem filhos e filhas no exercito e fazem serviço de reserva. O ponto que eu dou para o Nataniahu aqui é, portanto, porque ele conseguiu desviar o foco do verdadeiro problema. E o pior é que parece que muito pouca gente reparou nisso.
Sair pela imprensa afora gritando "O mundo está contra nós", como tem feito o governo de Israel hoje (e mais metade da população aqui) é não só uma verdade auto-realizável (afinal esse tipo de atitude realmente gera ódio internacional), como também é um processo político útil em vários níveis. É útil porque aumenta a moral do povo e do exército para a continuação do conflito, e não sua resolução. É útil porque justifica situações injustificáveis - como o bloqueio de Gaza. E, principalmente, porque uma situação de pressão externa desvia o foco de atenção da população.
Eu tive certeza de que logo após o desastroso ataque veríamos pelo país manifestações exigindo a cabeça do governo e do Nataniahu em particular, pela total e completa incompetência em resolver o problema. A imprensa tentou fazer o papel dela e chamou atenção para a péssima inteligência por detrás do ataque (se o Barak sabia, como afirmou depois, que havia no navio jihadistas querendo ser mártires prontos para briga, por que o ataque foi tão mal planejado? E se não sabia, como não sabia de um "detalhe" tão importante?). Chamou atenção para a péssima Hasbarah depois do ataque. Enfim, mostrou como o governo, mais uma vez, foi de suprema incompetência em lidar com assuntos tão importantes. E eu, na minha mísera inocência, achei que o povo iria às ruas para exigir respostas. Exigir uma mudança na organização política.
E eis que os governistas organizam manifestações de apoio ao exército, que na verdade nem precisa de manifestações de apoio, e que tiram toda a corrente de falhas do foco da discussão. Discussão essa que voltou a ser: "O mundo nos odeia, temos que nos defender".
Complicando ainda mais a situação, gerou-se uma dualidade falsa que faz de mim e outros que pensam como eu verdadeiros párias da direita e da esquerda de uma só vez. Houve sim protestos na noite seguinte ao ataque. Só que eram protestos contra o exército e contra os soldados. E esses, realmente fizeram um bom trabalho dadas as circunstâncias. Exércitos, por definição não tem ideologia ou alinhamento político. São, quando muito, o braço armado do governo. E eu queria era protestar contra o governo. A esquerda então me vê com olhos tortos, achando que eu sou a favor do cerco a Gaza e um direitista enrustido. Já as manifestações a favor do exército, eu me recusei a participar. Não ia participar desta farsa para desviar a atenção aos verdadeiros problemas: portanto me tornei um esquerdista.
Ou seja: hoje em Israel há, mesmo dentro da população, muito pouco lugar para diálogo e o saudável uso das faculdades mentais.
Quanto à retórica do Hamás/Palestina/Turquia: Meu pai já dizia que não basta ter razão, é preciso saber ter razão. E este é um exemplo maravilhoso de quem conseguiu estragar sua posição não sabendo ter razão. Furar o bloqueio de Gaza é um movimento político tão poderoso que juntou gente do mundo todo para o mar. Fazer Israel parecer mal na fita é um movimento político tão poderoso que juntou à gente do mundo todo um tiquinho de malícia jihadista suicida também. O erro foi tentar manter os dois grupos (que tinham objetivos bem diferentes) no mesmo barco. O plano de um (fazer pressão política para que Israel abra o bloqueio) acabou afetando o plano de outro (fazer Israel parecer mal na fita quando soldados da Shaietet 13 quase foram sequestrados à bordo do barco). E o outro acabou afetando às boas intenções do primeiro.
Para a alegria dos jihadistas, o primeiro objetivo não tinha a menor importância, assim que tiveram, ao seu ver, sua missão cumprida. Israel saiu bem mal na fita (ainda pior do que eles tinham imaginado antes), o premier turco ganhou uns 200 pontos políticos com sua população cada vez mais extremista e o IHH ganhou mais e mais adeptos pelo mundo. Tudo, claro, às custas do conflito entre palestinos e israelenses, mas sem fazer avançar o conflito para uma solução em um único milímetro (e talvez muito pelo contrário - aumentando o ódio e estendendo a guerra um pouco mais).
Quanto à retórica do resto do mundo, a situação se empobrece em praticamente todos os âmbitos. O movimento mundial contra Israel se fortaleceu. Infelizmente não na direção correta. Manifestações em São Paulo comparando Israel aos nazistas (por gente que não sabe o que foi o nazismo e não conhece Israel), gente escrevendo na Internet tantos clichês que às vezes sinto que simplesmente não há limite plausível para a ignorância humana. Leio no Twitter deputados federais com linhas de raciocínio tão racistas quanto Pol-Pot, sendo interpelados em seus textos por gente que consegue ser mais racista ainda. (Já li frases que começavam com um "até tenho uns amigos judeus...").
A crítica não é à ação em si. A critica não é ao bloqueio de Gaza, e a critica sequer é quanto ao conflito com os palestinos. A crítica se torna sobre a existência de Israel. E, neste caso, só torna Israel mais belicoso e rancoroso ainda. E, novamente, traz o conflito para situações ainda piores, ao invés de melhorar a situação.
A triste situação é a de que radicais irracionais tanto fora quanto dentro de Israel são os responsáveis pela atual existência em Israel e na Palestina de um governo tão, mas tão incompetente. E o círculo só alimenta a si mesmo.
sábado, junho 05, 2010
domingo, fevereiro 21, 2010
Se você é um esquerdista, digite um. Se é um direitista, digite dois.
- Você ligou para TeleReclamação. Para reclamações sobre o clima, digite um. Para reclamar sobre sua situação econômica, digite dois. Para uma reclamação sobre o governo, digite três. Para reclamações gerais, digite quatro. Para o operador, digite nove, ou aguarde na linha.
- Você digitou três, reclamações sobre o governo.
- Se você é um esquerdista, digite um. Se é um direitista, digite dois. Para o operador, digite nove.
- Você digitou nove. No momento todos os nossos terminais estão ocupados. Por favor, aguarde até que um de nossos atendentes possa lhe atender. Sua chamada é muito importante para nós. Por favor, aguarde.
♫ La donna è mobile
Qual piuma al vento,
Muta d'accento — e di pensiero.
Sempre un amabile,
Leggiadro viso, ♫
- No momento todos os nossos terminais estão ocupados. Por favor, aguarde até que um de nossos atendentes possa lhe atender. Sua chamada é muito importante para nós. Por favor, aguarde.
♫ In pianto o in riso, — è menzognero.
È sempre misero
Chi a lei s'affida,
Chi le confida — mal cauto il cuore!
Pur mai non sentesi
Felice appieno
Chi su quel seno — non liba amore! ♫
- No momento todos os nossos terminais estão ocupados. Por favor, aguarde até que um de nossos atendentes possa lhe atender. Sua...
- Telereclamação boa tarde, quem está falando é Júlia, em que posso ajudar?
- Oi, Júlia. Eu digitei três, para reclamar sobre o governo...
- Sim?
- Pois é, daí o sistema me deu opção de escolher entre direita e esquerda. Acontece que eu não me considero nem esquerdista nem direitista, então decidi falar com o operador. O caso é que...
- Desculpe, senhor. O senhor acaba de colocar uma reclamação sobre o sistema, isto é correto?
- Sim, é, mas não vem ao caso. O que eu queria reclamar mesmo é que...
- Desculpe-me novamente senhor. Mas para reclamações sobre o sistema o senhor deveria dirigir-se para "Reclamações em geral". Por favor, aguarde um instante que eu vou transferir sua ligação.
- Não! Espere!
- Obrigada, tenha um bom dia!
♫ La donna è mobile
Qual piuma al vento,
Muta d'accento — e di pensiero. ♫
- No momento todos os nossos terminais estão ocupados. Por favor, aguarde até que um de nossos atendentes possa lhe atender. Sua chamada é muito importante para nós. Por favor, aguarde.
♫ Sempre un amabile,
Leggiadro viso,
In pianto o in riso, — è menzognero.
È sempre misero
Chi a lei s'affida, ♫
- Telereclamação boa tarde, quem está falando é Daniela, em que posso ajudar?
- Ola, Daniela. Eu na verdade queria fazer uma reclamação sobre política. Só que daí o sistema de vocês só está programado para aceitar resposta se eu sou de esquerda ou se eu sou de direita. Acontece que eu não sou nem uma coisa nem outra.
- Entendo, senhor. O senhor gostaria de fazer uma reclamação a respeito disso?
- Também. Mas o fato foi que eu liguei para fazer uma reclamação sobre política e...
- Sinto muito, senhor, mas aqui é o terminal de reclamações gerais. Aguarde um instante que eu vou transferir sua chamada.
- Mas...!
- Obrigado, e tenha um bom dia.
♫ La donna è mobile
Qual piuma al vento,
Muta d'accento — e di pensiero.
Sempre un amabile, ♫
- No momento todos os nossos terminais estão ocupados. Por favor, aguarde até que um de nossos atendentes possa lhe atender. Sua chamada é muito importante para nós. Por favor, aguarde.
♫ Leggiadro viso,
In pianto o in riso, — è menzognero.
È sempre misero
Chi a lei s'affida,
Chi le confida — mal cauto il cuore!
Pur mai non sentesi ♫
- No momento todos os...
- Telereclamação boa tarde, quem está falando é Júlia, em que posso ajudar?
- Olá, Júlia. Eu tenho uma reclamação política para fazer.
- Sim? O senhor é de esquerda ou de direita?
- Eu sou coisa nenhuma. Aliás, essa história de tentar enquadrar todo mundo dentro de um modelo em um espectro unidimensional de esquerda e direita já está para lá de passado. E é por isso que eu gostaria de reclamar de...
- Desculpe senhor, mas o senhor só pode fazer uma reclamação a cada ligação. A não ser que o senhor seja cliente preferencial. O senhor é cliente preferencial?
- Mas eu ainda nem comecei!
- Desculpe, senhor, mas o que eu acabei de ouvir foi uma clara reclamação de cunho político mostrando insatisfação de sua parte do raso modelo de classificação política por parte dos programadores do terminal da nossa empresa. É isso, senhor, ou eu entendi errado?
- Ehn, sim. Quero dizer, não! Oras, eu liguei para reclamar de um assunto de extrema importância e simplesmente não consigo passar pela pergunta se sou esquerda ou direita! O que eu queria mesmo reclamar é do...
- Senhor, por favor. Essa foi a segunda reclamação feita em uma única chamada. Se o senhor é um cliente preferencial, por favor, digite...
- Mas eu ainda nem comecei!
- Senhor, por favor, não há motivo para levantar a voz. O senhor reclamou da qualidade dos nossos serviços. É a segunda reclamação, mas esta não é política, portanto eu vou transferir-la para outro terminal.
- Não! Aquela bosta de musiquinha não!
- Esta é sua terceira reclamação...
- Você digitou três, reclamações sobre o governo.
- Se você é um esquerdista, digite um. Se é um direitista, digite dois. Para o operador, digite nove.
- Você digitou nove. No momento todos os nossos terminais estão ocupados. Por favor, aguarde até que um de nossos atendentes possa lhe atender. Sua chamada é muito importante para nós. Por favor, aguarde.
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- Oi, Júlia. Eu digitei três, para reclamar sobre o governo...
- Sim?
- Pois é, daí o sistema me deu opção de escolher entre direita e esquerda. Acontece que eu não me considero nem esquerdista nem direitista, então decidi falar com o operador. O caso é que...
- Desculpe, senhor. O senhor acaba de colocar uma reclamação sobre o sistema, isto é correto?
- Sim, é, mas não vem ao caso. O que eu queria reclamar mesmo é que...
- Desculpe-me novamente senhor. Mas para reclamações sobre o sistema o senhor deveria dirigir-se para "Reclamações em geral". Por favor, aguarde um instante que eu vou transferir sua ligação.
- Não! Espere!
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- Olá, Júlia. Eu tenho uma reclamação política para fazer.
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- Mas eu ainda nem comecei!
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- Mas eu ainda nem comecei!
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sexta-feira, fevereiro 19, 2010
Entre os Crentes e os Cínicos
A realidade só é mesmo digesta para aqueles que são cínicos ou para aqueles que são crédulos.
A frase original não é minha e eu não me lembro quando a li, nem de quem ela é nem sua forma original. Adapto-a às minhas próprias necessidades.
A frase é especialmente verdadeira no caso de Israel. E é mais válida ainda nos dias de hoje. Tenho reparado que, simplificando um monte, o povo se divide em esquerda e direita. Quando o governo é de esquerda, o povo de esquerda se torna crédulo, o povo de direita se torna cínico. Agora, quando o governo é de direita, o povo da direita se torna crédulo, e o povo esquerdista se torna cínico.
Alguns (como este que vos escreve) seguem cínicos haja este ou outro governo . Mas acho que nunca vi ninguém que siga crédulo por vários governos seguidos.
Vamos usar como exemplo, para tentar simplificar as coisas, o atual governo.
Para quem ainda não reparou, o atual governo, liderado por Biniamin Nataniahu, é de direita. Não uma direitinha qualquer, mas uma mega direita, uma coalizão com ultra-nacionalistas de um lado, ultra-religiosos de outro, uma agenda conservadora até mesmo no plano doméstico.
Abro um parênteses aqui para advertir meus caros leitores a não se precipitarem em tirar conclusões a respeito da orientação dos governos de Israel baseados em pura retórica (Lieberman disse isso, Bibi disse aquilo, Barak afirmou aquele outro). A retórica é parte do cinismo, como virei a explicar mais abaixo. A classificação do posicionamento de um político tem, na verdade, a ver com o tipo de lei que este vem tentando promulgar, qual é o tipo de voto na Knesset, que políticas internas apoia. Como a imprensa internacional não se fixa muito em nomes de políticos relativamente obscuros, muito menos da politicagem de 2o e 3o escalão, fica parecendo que há uma sólida colocação que pode ser facilmente refletida na retórica internacional (Lieberman disse isso, Bibi disse aquilo, Barak afirmou aquele outro). Enfim, não há tal reflexo. Fim dos parênteses.
Dentre os diversos problemas enfrentados pelo atual governo, se destaca o dos colonos. Já faz mais de 30 anos que o colonialismo e o expansionismo são identificados com a direita israelense. Sendo o governo de direita (e cheio de representantes dos colonos), os colonos são os crentes, os anti-colonos são os cínicos. Nataniahu afirma para Obama que fará uma pausa nas construções nos assentamentos, lá vem os colonos (crentes) a chiar, acreditando que a política é a sério, e que é exatamente o que vai acontecer. Ficam os esquerdistas (cínicos) a lembrarem que nada do que o Bibi diz realmente é feito, e que, mais a mais, não faz sentido uma paralisação nas construções nos assentamentos. Ou bem se para permanentemente, ou se segue construindo como antes.
Na verdade só dei um exemplo conhecido para apresentar melhor o ponto. Ele nem sequer é o melhor exemplo. Os melhores estão dentro da política interna, gerados pelo 2o e terceiro escalões que a imprensa internacional nem se dignifica em noticiar (o que é uma pena - quem sabe alguém fora de Israel passasse a ter pena da gente e viesse tentar nos salvar de nossos políticos).
Aqui vai: O ministro da justiça, Yaakov Neeman, afirmou, durante um congresso rabínico, que "A glória passada deveria ser restaurada, que a lei da Torah seja a lei unificadora do Estado de Israel" em uma colocação claramente teocrática, retrógrada e política (dada a incompatibilidade de manter um sistema jurídico conciso e ter uma lei de 3000 anos de idade).
O ministro foi ovacionado pelos rabinos e criticados por todo o resto. Os que apoiam uma iniciativa dessas claramente relevam a impossibilidade de tal implementação e babam sobre esse sonho teocrático, ainda mais quando vem de um ministro. E assim se tornam crentes. Todo o resto, mortificado com a possibilidade de nos tornarmos de facto uma Arábia Saudita, mesmo sabendo da impossibilidade concreta de isso acontecer por decreto, fica aterrorizado. O suficiente para só poder seguir respirando fazendo muita crítica e piada a respeito. São os cínicos. Só sendo muito cínico para passar um susto desses vivo.
Uma outra aqui: O aqui já festejado ministro das finanças (festejado aqui, como cínico que sou) Yuval Steinitz pediu para a suprema corte parar de tomar decisões judiciais que fossem caras demais para o Estado. Quem não faz ideia do que significa democracia e divisão de poderes, aplaude a ideia, e como crente que são, realmente acreditam que agora o país estará redimido e terá seu futuro salvo. Os outros ficam tão aterrorizados que só o cinismo para salvá-los de um ataque cardíaco fulminante.
A última do Mossad? Só com muito cinismo, algum sarcasmo e uma dose de ironia (grossa, que a fina a gente reserva para assuntos mais sérios) a gente leva. A pior? A ideia (link não é o oficial do Ministério, mas de um fellow blogger que explica não só a ideia em si, mas o contexto da coisa) do Ministro da Informação Pública e da Diáspora e sua campanha de Hasbará popular. É literalmente rir para não chorar.
Houve quem escreveu, em geral dentro de regimes totalitaristas, que os cínicos são a desgraça da nação.
Acho que só quem viu seu país entrar em uma guerra inconsequente (mais de uma vez) entende que o que realmente mina a viabilidade de uma verdadeira democracia é a crença desvairada.
A frase original não é minha e eu não me lembro quando a li, nem de quem ela é nem sua forma original. Adapto-a às minhas próprias necessidades.
A frase é especialmente verdadeira no caso de Israel. E é mais válida ainda nos dias de hoje. Tenho reparado que, simplificando um monte, o povo se divide em esquerda e direita. Quando o governo é de esquerda, o povo de esquerda se torna crédulo, o povo de direita se torna cínico. Agora, quando o governo é de direita, o povo da direita se torna crédulo, e o povo esquerdista se torna cínico.
Alguns (como este que vos escreve) seguem cínicos haja este ou outro governo . Mas acho que nunca vi ninguém que siga crédulo por vários governos seguidos.
Vamos usar como exemplo, para tentar simplificar as coisas, o atual governo.
Para quem ainda não reparou, o atual governo, liderado por Biniamin Nataniahu, é de direita. Não uma direitinha qualquer, mas uma mega direita, uma coalizão com ultra-nacionalistas de um lado, ultra-religiosos de outro, uma agenda conservadora até mesmo no plano doméstico.
Abro um parênteses aqui para advertir meus caros leitores a não se precipitarem em tirar conclusões a respeito da orientação dos governos de Israel baseados em pura retórica (Lieberman disse isso, Bibi disse aquilo, Barak afirmou aquele outro). A retórica é parte do cinismo, como virei a explicar mais abaixo. A classificação do posicionamento de um político tem, na verdade, a ver com o tipo de lei que este vem tentando promulgar, qual é o tipo de voto na Knesset, que políticas internas apoia. Como a imprensa internacional não se fixa muito em nomes de políticos relativamente obscuros, muito menos da politicagem de 2o e 3o escalão, fica parecendo que há uma sólida colocação que pode ser facilmente refletida na retórica internacional (Lieberman disse isso, Bibi disse aquilo, Barak afirmou aquele outro). Enfim, não há tal reflexo. Fim dos parênteses.
Dentre os diversos problemas enfrentados pelo atual governo, se destaca o dos colonos. Já faz mais de 30 anos que o colonialismo e o expansionismo são identificados com a direita israelense. Sendo o governo de direita (e cheio de representantes dos colonos), os colonos são os crentes, os anti-colonos são os cínicos. Nataniahu afirma para Obama que fará uma pausa nas construções nos assentamentos, lá vem os colonos (crentes) a chiar, acreditando que a política é a sério, e que é exatamente o que vai acontecer. Ficam os esquerdistas (cínicos) a lembrarem que nada do que o Bibi diz realmente é feito, e que, mais a mais, não faz sentido uma paralisação nas construções nos assentamentos. Ou bem se para permanentemente, ou se segue construindo como antes.
Na verdade só dei um exemplo conhecido para apresentar melhor o ponto. Ele nem sequer é o melhor exemplo. Os melhores estão dentro da política interna, gerados pelo 2o e terceiro escalões que a imprensa internacional nem se dignifica em noticiar (o que é uma pena - quem sabe alguém fora de Israel passasse a ter pena da gente e viesse tentar nos salvar de nossos políticos).
Aqui vai: O ministro da justiça, Yaakov Neeman, afirmou, durante um congresso rabínico, que "A glória passada deveria ser restaurada, que a lei da Torah seja a lei unificadora do Estado de Israel" em uma colocação claramente teocrática, retrógrada e política (dada a incompatibilidade de manter um sistema jurídico conciso e ter uma lei de 3000 anos de idade).
O ministro foi ovacionado pelos rabinos e criticados por todo o resto. Os que apoiam uma iniciativa dessas claramente relevam a impossibilidade de tal implementação e babam sobre esse sonho teocrático, ainda mais quando vem de um ministro. E assim se tornam crentes. Todo o resto, mortificado com a possibilidade de nos tornarmos de facto uma Arábia Saudita, mesmo sabendo da impossibilidade concreta de isso acontecer por decreto, fica aterrorizado. O suficiente para só poder seguir respirando fazendo muita crítica e piada a respeito. São os cínicos. Só sendo muito cínico para passar um susto desses vivo.
Uma outra aqui: O aqui já festejado ministro das finanças (festejado aqui, como cínico que sou) Yuval Steinitz pediu para a suprema corte parar de tomar decisões judiciais que fossem caras demais para o Estado. Quem não faz ideia do que significa democracia e divisão de poderes, aplaude a ideia, e como crente que são, realmente acreditam que agora o país estará redimido e terá seu futuro salvo. Os outros ficam tão aterrorizados que só o cinismo para salvá-los de um ataque cardíaco fulminante.
A última do Mossad? Só com muito cinismo, algum sarcasmo e uma dose de ironia (grossa, que a fina a gente reserva para assuntos mais sérios) a gente leva. A pior? A ideia (link não é o oficial do Ministério, mas de um fellow blogger que explica não só a ideia em si, mas o contexto da coisa) do Ministro da Informação Pública e da Diáspora e sua campanha de Hasbará popular. É literalmente rir para não chorar.
Houve quem escreveu, em geral dentro de regimes totalitaristas, que os cínicos são a desgraça da nação.
Acho que só quem viu seu país entrar em uma guerra inconsequente (mais de uma vez) entende que o que realmente mina a viabilidade de uma verdadeira democracia é a crença desvairada.
sábado, fevereiro 13, 2010
Rafi
- Preciso de um carreto, da Ben-Yehuda em Tel-Aviv até Bialik, em Ramat Gan. Quanto vai me custar?
- Qual é a carga?
- Um colchão e um estrado. Eu carrego tudo. Só preciso do transporte. Quanto sai?
- 200 Shekalim.
- Tá ótimo. - Tava caro. São todos bem caros. E se eu pechinchasse talvez ele baixasse o preço. Mas sou ruim nisso e não estava de bom humor. - Hoje às 6 você está livre?
- Ehn... Deixe-me ver. - Deu um tempo e depois voltou à linha: - Às 6, é? Onde?
- Na Ben-Yehuda, numero tal. Vou estar esperando lá embaixo com o colchão e o estrado.
- Colchão e estrado, né? Prá onde?
- Bialik, Ramat Gan.
- Que andar?
- Não importa. Eu carrego tudo.
- Certo. Vai custar 300 shekalim.
- Mas você acabou de me dizer que eram 200!
- Tá. 200.
O Rafi era um cara em alguma coisa entre os 50 e os 60 anos, mas com aquela cara acabada de de quem fumou a vida inteira. Tinha um cabelo grisalho, bem comprido, até os ombros, que ele não prendia e parecia que também não penteava. Bem magro, um corpo que parecia ser musculoso e encurvado para frente. Estava todo errado. Tinha que estar segurando uma Fender, com um cigarro de maconha pendurado nos beiços tocando hard blues em um palco mal iluminado. Mas estava dirigindo seu caminhão com meu colchão dentro. O caminhão sim que estava certo. Era um desses mercedinhos urbanos com caçamba de lona, toda pichada com spray de cores fosforescentes, desenhos psicodélicos e o telefone dele. Rafi - Mudanças. 054-Tal-Tal-e-Tal.
Subi com ele na cabine. O acabamento de plástico das portas e do painel davam dicas da idade do caminhão. No rádio tocava Galgalatz (pop streamline jabá). Então ele começou com aquilo que parece ser compulsão de todo transportador em Israel: meter-se na minha vida e contar a sua própria.
Depois do "O que é que você faz? Ah! Estuda! O que? E tem trabalho? Dá dinheiro?", ele começou a contar da vida dele.
No exército (não perguntei quando foi isso) ele havia estado em uma unidade de demolição.
- Demolição?
- É. Isso. De paredes a prédios inteiros.
Desmontavam e destruíam de tudo. Galpões, edifícios, construções em geral, pontes, torres - coisa velha no caminho, ou coisa nova mal feita, ou estruturas inimigas. Depois dos três anos obrigatórios, assinou contrato com o exército por mais tempo e acabou ficando mais quatro anos. Fez cursos no exterior e começou a usar explosivos como ninguém.
Depois desse período (e de reclamar do trânsito um bocado) ele contou que foi fazer aquilo na vida civil. Fez alguns cursos no exterior para poder validar seu conhecimento no exército. Depois de vários anos na área de demolição, com empresa própria e tudo, decidiu que não havia mais o que fazer na área. Não havia trabalho (que foi aliás, o lamento que o fez começar a contar a história toda). Vendeu tudo que tinha, comprou o caminhão (que pela cara devia ser aquele mesmo) e vivia de fazer mudanças.
Disse depois que tinha um Caffé seu, na esquina da Hertzel com a Wolfson, mas que o movimento era bem fraco.
Foi lá, aliás, comprando tubos de aço para fazer um dos meus projetos, que eu vi o caminhão estacionado (dentre outros vários) e peguei o telefone. Fiz questão de ver direito o lugar na outra vez que estive por lá. Dentro estava vazio, fora, numa das duas mesas, havia dois velhinhos marroquinos que pareciam ser habitués e jogavam conversa fora.
A musica? O mais brega dos pops orientais. Nada de psicho-rock dos anos 70.
- Qual é a carga?
- Um colchão e um estrado. Eu carrego tudo. Só preciso do transporte. Quanto sai?
- 200 Shekalim.
- Tá ótimo. - Tava caro. São todos bem caros. E se eu pechinchasse talvez ele baixasse o preço. Mas sou ruim nisso e não estava de bom humor. - Hoje às 6 você está livre?
- Ehn... Deixe-me ver. - Deu um tempo e depois voltou à linha: - Às 6, é? Onde?
- Na Ben-Yehuda, numero tal. Vou estar esperando lá embaixo com o colchão e o estrado.
- Colchão e estrado, né? Prá onde?
- Bialik, Ramat Gan.
- Que andar?
- Não importa. Eu carrego tudo.
- Certo. Vai custar 300 shekalim.
- Mas você acabou de me dizer que eram 200!
- Tá. 200.
O Rafi era um cara em alguma coisa entre os 50 e os 60 anos, mas com aquela cara acabada de de quem fumou a vida inteira. Tinha um cabelo grisalho, bem comprido, até os ombros, que ele não prendia e parecia que também não penteava. Bem magro, um corpo que parecia ser musculoso e encurvado para frente. Estava todo errado. Tinha que estar segurando uma Fender, com um cigarro de maconha pendurado nos beiços tocando hard blues em um palco mal iluminado. Mas estava dirigindo seu caminhão com meu colchão dentro. O caminhão sim que estava certo. Era um desses mercedinhos urbanos com caçamba de lona, toda pichada com spray de cores fosforescentes, desenhos psicodélicos e o telefone dele. Rafi - Mudanças. 054-Tal-Tal-e-Tal.
Subi com ele na cabine. O acabamento de plástico das portas e do painel davam dicas da idade do caminhão. No rádio tocava Galgalatz (pop streamline jabá). Então ele começou com aquilo que parece ser compulsão de todo transportador em Israel: meter-se na minha vida e contar a sua própria.
Depois do "O que é que você faz? Ah! Estuda! O que? E tem trabalho? Dá dinheiro?", ele começou a contar da vida dele.
No exército (não perguntei quando foi isso) ele havia estado em uma unidade de demolição.
- Demolição?
- É. Isso. De paredes a prédios inteiros.
Desmontavam e destruíam de tudo. Galpões, edifícios, construções em geral, pontes, torres - coisa velha no caminho, ou coisa nova mal feita, ou estruturas inimigas. Depois dos três anos obrigatórios, assinou contrato com o exército por mais tempo e acabou ficando mais quatro anos. Fez cursos no exterior e começou a usar explosivos como ninguém.
Depois desse período (e de reclamar do trânsito um bocado) ele contou que foi fazer aquilo na vida civil. Fez alguns cursos no exterior para poder validar seu conhecimento no exército. Depois de vários anos na área de demolição, com empresa própria e tudo, decidiu que não havia mais o que fazer na área. Não havia trabalho (que foi aliás, o lamento que o fez começar a contar a história toda). Vendeu tudo que tinha, comprou o caminhão (que pela cara devia ser aquele mesmo) e vivia de fazer mudanças.
Disse depois que tinha um Caffé seu, na esquina da Hertzel com a Wolfson, mas que o movimento era bem fraco.
Foi lá, aliás, comprando tubos de aço para fazer um dos meus projetos, que eu vi o caminhão estacionado (dentre outros vários) e peguei o telefone. Fiz questão de ver direito o lugar na outra vez que estive por lá. Dentro estava vazio, fora, numa das duas mesas, havia dois velhinhos marroquinos que pareciam ser habitués e jogavam conversa fora.
A musica? O mais brega dos pops orientais. Nada de psicho-rock dos anos 70.
sexta-feira, dezembro 04, 2009
sexta-feira, novembro 27, 2009
Comida Típica Israelense
Quais são as comidas típicas de Israel?
Esta pergunta envolve uma enorme gama de respostas complexas que por vezes podem vir a agredir povos e culturas.
Por exemplo: a maior religião monoteísta do Oriente Médio se chama Humus. Quase todo país da região se considera pátria "mãe" do Humus e todo povo acha que seu Humus é bem melhor que o Humus dos outros.
É a ponto de altíssimas porradas.
Um caso exemplar é o do Líbano inventando de criar o maior prato de Humus do mundo. Um feito que só pode ser comparado com o de Neil Armstrong fincando a bandeira americana na Lua para confirmar que aquilo, em nome dos americanos, pertence a toda a humanidade. O Líbano, com suas toneladas do prato afirmam: O Humus é nosso - e ninguém tasca!
Nem em Israel é questão clara. Onde está o melhor Humus? Yaffo? Abu-Gosh? Jerusalém? Cada um tem seu Humus preferido e se você inventar de discutir que aquele seu é melhor, vai acabar levando uma pratada na cara.
Israel obviamente não poderia ter algo a ser chamado de "comida típica". Tem uma história de imigração de pouco mais de 150 anos, em uma terra que já foi controlada por diversos governos e povos, por onde já passou uma quantidade não desprezível de povos que ficaram aqui por tempos variáveis. Os que aqui agora estão trouxeram cada um o seu prato. Palestino, Druso, Buhari, Iraniano, Iraquiano, Marroquino, Tunísio, Egípcio, Liberiano, Polonês, Lituano, Russo, Ucraniano e depois ainda Argentino, mais Russo, Brasileiro, Americano, Francês e finalmente Filipino e Chinês.
Questão de Semântica;
Um israelense médio, de inteligência média, de conhecimento de mundo médio e de opiniões médias vai afirmar, sem pensar demais, que comidas típicas israelenses são:
Nenhuma dessas criadas em Israel propriamente dito. Nenhuma consumida especificamente apenas em Israel, e comudas abundantes pelo mundo inteiro. O que me leva a uma pergunta mais interessante:
O que é comida típica?
- Seria uma comida cuja origem é a do país/região?
- Seria uma comida cujo consumo se dá caracteristicamente naquele país/região, mas não em outros?
- Ou seria uma comida que simplesmente não existe em outro lugar do mundo?
Fico me divertindo cá a pensar num restaurante de comida típica brasileira aqui em Israel ou outro lugar do mundo. Teria que incluir no mesmo menu Tutu à mineira, churrasco, vatapá e coxinha. O Brasil é vasto demais para ter um único tipo de cozinha realmente típica. Israel é vasta demais culturalmente para o mesmo.
Mas não deixarei meus leitores na mão e vou tentar responder à pergunta de "Quais são as comidas típicas israelenses" baseado nos três critérios que suspeito serem bastante úteis:
Bamba;

Porcarídeo de milho e manteiga de amendoim. Inventado em 1964, tem mais de 25% do mercado interno em Israel. Tem cara de cheetoos, mas tem gosto de... bem, amendoim. Parece estranho para um brasileiro, porque vem em uma forma, cor e embalagem que nós vemos associados com salgadinhos, mas Bamba é doce. No entanto após o segundo ou terceiro pacote é absolutamente viciante.
Bamba é a terceira palavra que nenéns israelenses aprendem a falar (às vezes segunda, ou primeira). Já vi pais conversando na frente dos filhos e dizendo "The B. Word" para evitar a catástrofe de terem seus nenéns gritando que querem um pacote.
Shkedei Marak;

São uns micro biscoitinhos amarelos, salgadinhos, com um leve gostinho de caldo de galinha que fazem a alegria de qualquer inverno.
Assim como para mim wasabi é o verdadeiro motivo para se comer sushi, Shkedei Marak é o verdadeiro motivo para se comer sopa.
Eles são despejados no prato e consumidos junto com a sopa. E rápido, para não encharcarem. O truque é colocar bastante, comer tudo que está ali boiando, e daí colocar mais.
Tem quem coma puro. Mas daí são os hardcores.
Café Instantâneo Elite;

Uma das coisas mais perturbadoras que vi quando cheguei em Israel foi esse café. Tem cara de areia. Tem gosto de areia e só não tem consistência de areia porque é solúvel. Logo depois descobri um fato ainda mais perturbador: israelenses *adoram* esse café.
Café instantâneo à moda israelense;

Assim: em um copo de papel, coloque uma ou duas colheradas de açúcar. Daí despeje uma colher cheia do café solúvel de sua preferência (a preferência israelense é o café Elite, aí de cima). Encha com 1/3 de água quente. Acrescente leite frio a gosto.
"Mukpatz";

"Mukpatz" é a palavra israelense para "saltado", ou "salteado", ou nesse caso, frito numa Wok. É um nome-código para comida chinesa falsificada. É um monte de verdura de proveniência duvidosa, molho de soja de proveniência duvidosa e uns pedaços de frango de proveniência duvidosa. Frita tudo e diz que é comida chinesa. O cliente ainda é brindado com a opção de colocar tudo dentro de uma baguette e sair comendo. Como come-se disso muito por aqui, como nunca vi disso em outro lugar do mundo, e como imagino que tenha sido inventado aqui mesmo, vale como sendo comida típica.
Sugestões de outros? Aceito nos comentários!
sábado, novembro 21, 2009
Cachorradas Internéticas
A impressionante incapacidade das pessoas em discutir com ponderação assuntos que possam envolver forte carga emocional sempre foi algo que me perturbou. Na Internet, protegidas pela distância física e pelo anonimato as pessoas passam longe do ponto onde já deixaram de ser ridículas, e passam a agir como psicopatas. Os assuntos esses são variados. Vai desde o tema da legalização do aborto, passando por religião, politica nacional, internacional, Oriente Médio, direitos dos homossexuais e, esta semana que passou, o direito de comer cachorro.
Foi um tema bem vindo, porque apesar de ter opinião formada a respeito de vários outros temas controversos (e tenho eu cá minhas opiniões controversas, por motivos controversos), neste tema de culinária canina me vi em um mato sem cachorro.
Alias, minha opinião sequer conta aqui. O que quero discutir é a discussão em si, e a dificuldade das pessoas de transpor a barreira emocional e simplesmente usar o cérebro para pensar, raciocinar e usar todas as maravilhosas faculdades logicas que essas atividades proporcionam.
A discussão começou com a interdição de um abatedouro de cachorros em Suzano. Admito que li a notícia com certa estranheza. Prepara-se churrex e filet-miau no Brasil desde os tempos em que inventaram a fome. Mas abatedouro para mim, no Brasil, era novidade. Não me abalei, não me impressionei e toquei minha vida adiante.
Até que me deparei com este post daqui.
O texto em si nem me chocou, nem me emocionou nem me perturbou. Foi um texto escrito em tom de gaiato e sincero que eu pessoalmente não consegui concordar nem descordar.
Já os comentários me perturbaram. Não cheguei a ler os mais de 300 comentários (até o dia de hoje), mas os que eu li eram raivosos, rancorosos, violentos, ameaçadores. Nenhum - repito - nenhum deles especificava o porque do comentarista ser contra comer cachorros, como se fosse óbvio, e o blogueiro um delinquente que não está entendendo nada.
Me propus a analisar não o fato de comer-se cachorros ou não, não o fato disso ser ético, bonito, gostoso ou não. Simplesmente analisar a reação assustadora das pessoas que comentaram neste caso (e fazer uma analogia para outros assuntos mais pesados). Mas para isso, devo antes deixar claro que, de óbvio, o assunto não tem nada.
Consensos, quando não são baseados em fatos são na verdade uma enorme montanha de preconceitos. Por que ninguém chia quando alguém come carne de porco no Brasil? O que tem o porco de inferior ao cachorro que faz com que seja perfeitamente aceitável não apenas comê-lo, mas criá-lo para este fim?

Porcos são e foram em várias situações e locais animais de estimação. São fofinhos e são extremamente inteligentes, podem servir para prestar vários serviços. Simplesmente não consigo encontrar nenhum fato, que não seja simplesmente cultural, que caracterize o porco como sendo biologicamente em nível inferior ao cão.
Poderia escrever odes às vacas. Vacas podem não ser extremamente inteligentes, mas são carinhosas, tem personalidade e podem vir a ser até bem fofinhas. Vários amigos meus, urbanos até os ossos, ao virem passar um ano aqui em Israel, voluntariando em um kibutz, simplesmente se apaixonaram pelas vacas que cuidaram, chamando pelo nome e tudo mais.
E assim fico tentando imaginar por que nos causa ojeriza (pelo menos a alguns de nós) comer carne de cachorro. Certamente a resposta não é biológica, tampouco é obvia. E certamente não deveria ser fato tido como garantido.
Quando pessoas tem seus brios culturais atacados, perdem as estribeiras. "Como assim comer cachorro?!" Um consenso não deveria nem sequer ser questionado. Ou deveria?
Não.
Realmente não deve ser questionado, afinal, se fosse não se chamaria consenso. Consensos e ideologias existem como uma especie de piloto automático. Ao invés de se gastar tempo, vitaminas e fósforo do cérebro pensando, usam-se consensos para nortear a vida, tomar decisões importantes de maneira imediata.
Consensos e ideologias são dispositivos tão poderosos na psique humana que provavelmente já foram muito úteis, até mesmo vitais na história evolucionária humana. Por exemplo: se é consenso não comer cachorro (ou porco, como aqui no Oriente Médio, ou vacas, na Índia), melhor nem questionar - afinal:
Isso explica o fato das pessoas não questionarem seus próprios preconceitos, consensos e hábitos. Só não explica o porque de ficarem tao ofendidas quando alguém o faz.
Já vi bons amigos sem nunca mais se falar por uma discussão a respeito do direito de aborto. Uma pancadaria a respeito da liberação das drogas e milhares (provavelmente milhões) de pessoas assassinadas por motivos religiosos.
A grande parte dos maiores maus entendidos a que tenho presenciado são de ordem lógica. Lógica pura. Escreve-se uma coisa, leitores a leem e interpretam do jeito que querem, assassinando mais de 3000 anos de estudos de lógica. Aqui vão alguns exemplos;
Outros exemplos clássicos envolvem a estatística. Estatística é uma parte da matemática complicada e, ao contrário do que se pensa, muito pouco intuitiva. Erros estatísticos em geral são uma compilação de achismos baseados na experiência, ou nas aparências.
Exemplos disso são pessoas vendo na propaganda da loto na televisão, ganhadores sorridentes e felizes em uma entrevista. Pensam: "Eles ganharam. Nós também podemos ganhar!". Se TODOS os perdedores forem entrevistados, cinco segundos de entrevista cada um, ficaríamos ANOS na frente da televisão, sem fazer absolutamente mais nada (nem dormir) vendo essas entrevistas. A ideia de que ganhar na loto é trivial diminuiria significavelmente.* É o mesmo processo que faz pessoas terem muitíssimo mais medo de voar de avião do que andar de carro, apesar do segundo ser várias vezes mais perigoso e mortal.
Erros estatísticos "provam" que comer cachorro é errado: afinal come-se muito mais porcos que cachorros, não? Não. Ou melhor: não sei. Ou melhor ainda: é provável que ninguém saiba, pois não existem números confiáveis. Mas assim nos parece, afinal, nas nossas redondezas, costuma-se ver muito mais gente comendo carne de porco que carne de cachorro.
É o mesmo tipo de erro que apresenta Israel como sendo um lugar perigosíssimo (talvez ainda não tanto quanto Gaza), onde a única coisa que há são guerras e morte. Muitíssimo mais perigoso que, por exemplo, o Rio de Janeiro. (No Rio de Janeiro morreram apenas em confrontos policiais - sem contar aqui assassinatos civis, afinal estou falando de uma guerra - mais de 10000 pessoas. Desde 2000, morreram entre palestinos e israelenses pouco mais de 12 mil). É verdade que ver o Rio nos noticiários como sendo violenta é figurinha carimbada. Aliás, tão carimbada, que assassinatos por lá já faz mais de meio século já não são mais notícias. Já Israel nunca nem jamais aparece em outro contexto que não o do conflito - e quanto mais armado e violento, mais aparece.
Erro estatístico é fácil de se transformar em um pré julgamento. Seguindo exatamente a mesma lógica (ou falta de) que apresentei logo acima, conclui-se que negros são bandidos. Pelo sim, pelo não, atravessa-se a rua para a outra calçada se a rua estiver meio escura e meio vazia. Pré julgamento esse que quando é sobre uma pessoa, baseada em suas origens, se chama de racismo.
"Oras! Você já viu um japonês burro? Um judeu pobre? Uma loira formada em física quântica?" e assim por diante. Colocando assim parece tudo muito óbvio. Mas quando se fala da reação raivosa de gente que usa consensos ao invés de usar a cabeça nada é muito óbvio.
O caso da Geisy Arruda é perfeito para ilustrar. Antes, durante e (pasmaram as feministas) até mesmo depois do linchamento moral da moça, muita gente (talvez a maioria) seguia achando que quem estava errado nesta história toda era a aluna. Afinal "quem anda de vestido curto cor-de-rosa choque está pedindo para ser escorraçado, não?", porque "quem se veste assim é puta".

Se um sujeito vive sob um ideal e um consenso, vai lutar como uma fera para não ver seu mundinho desarmar-se. Uma pessoa é facilmente manipulável para agir de maneira violenta ao ter seu consenso questionado. Uma turba é mais ainda. Especialmente porque consensos tem seu respaldo pelo fato de serem aceitos pelo grupo. "Como assim eu estou errado? Eu? E todos esses meus amigos e colegas e familiares? Tudo completamente errado e você certo? Oras! Quem é você?" E assim, sem pensar muito (na maioria das vezes, sem pensar nada) o sujeito parte para a ignorância, e despeja toda raiva no questionador. Foi assim com o blogueiro e sua vontade de provar cachorro, foi assim com pobre moça da Uniban.
As vezes a briga se divide em times. Os Petistas e os Tucanos. Os comunistas e os capitalistas, os Flamenguistas e os Fluminenses. Os pró-vida e os pró-escolha. Os pró-Israel e os pró-palestinos.
O aglutinamento de todos os pensamentos possíveis em duas vertentes é comum, pois dicotomia, dualismo, dualidade é mais fácil de virar um consenso do que um mundo multifacetado e complexo. E, como já cansei de dizer, o hábito é o de pensar o menos possível e usar os instintos o quanto mais.
Às vezes, numa briga desse tipo, é mais importante mostrar que o outro lado está errado do que postar-se como estando certo. Outra tática bastante comum é desqualificar o "adversário". Para isso vale xingar a mãe e citar preferências sexuais. Nada relevante para o argumento.
"Comer cachorrinhos é errado porque... porque... porque... Oras! Porque você é quem está dizendo que comeria cachorrinhos, e você é um monstro!"
Na verdade veio em boa ora este novo assunto porque os velhos já estão saturados de clichês. Clichês são frases de efeito gravadas na memória de milhões de idiotas torcedores de certo bloco que são imediatamente usadas como trunfo em meio à discussão. Entender o significado da frase é dispensável, e conhecer a origem dos fatos que ele apresenta também é desnecessário para um bom brigão.
"Fetos já tem pensamentos e sentimentos dentro da barriga da mãe!" contra "O corpo é da mulher, e ela tem direito de fazer com ele o que quiser". Ambos os chavões são populares, suas acuracidades manipuladas de forma a parecerem absolutas e de difícil resposta. Não se baseiam em qualquer dado científico, moral, filosófico ou lógico.
"Li na Veja", ou "Olhe este artigo na Wikipédia", "foi meu avozinho que falou. E ele nunca mente", são comuns. Já me deparei até com "foi Deus que me disse!".
Não entro em discussões acadêmicas. Não procuro fontes absolutas nem sequer costumo checar-las muito. Mas se alguém faz um comentário malicioso sobre determinado assunto (religião, ou ateísmo, ou sobre o conflito no oriente médio, ou sobre comer cachorros) e usa como respaldo uma citação, é importante verificar exatamente quais são as motivações do autor citado. No caso do conflito do oriente médio, ou história de Israel (assuntos que posso discutir com relativo conhecimento, e portanto sei) é difícil encontrar até mesmo um acadêmico que já não tenha tomado um partido bem antes de iniciar a pesquisa. Normalmente por motivos religiosos, motivos psicológicos (culpa, medo, ansiedade) e que cavucou a História para encontrar dados que provem a teoria (ao invés do método científico de gerar teorias para explicar os fatos). Raivosos discutidores profissionais da Internet adoram gritar que isso não invalida os dados. Gritam tão alto que esquecem que nenhum dado vive sem seu contexto.
A melhor colocação desta tática eu vi no filme "Obrigado por Fumar". O trecho relevante começa no vídeo abaixo depois dos 5:45 minutos. Mas o filme está todo no YouTube, e vale à pena vê-lo todo.
Prá falar a verdade, existem várias variações de xingar a mãe que para um desatento pode parecer como mudança de assunto. Fica por conta do interlocutor aproveitar para cair na porrada também, ou simplesmente deixar prá lá.
O mais importante motivo para uma discussão, seja fora da Internet, mas especialmente dentro simplesmente virar uma gritaria entre surdos, é o que eu chamo de Teoria da Brecha.
Há uma nítida impressão de que cada vez que se concorda com o que o interlocutor afirma, dá-se um ponto para ele, e ao seu argumento. A impressão é a de que quanto mais certo ele estiver, mais errado você estará. Abrir uma pequena brecha para o "inimigo" é impensável. Isso simplesmente faz com que pessoas razoavelmente inteligentes neguem o óbvio.
Exemplos:

O fim da linha psicológico simplesmente não permite conclusões lógicas. Não parece haver solução próxima, até as pessoas passarem a argumentar e a tentar entender com o cérebro, e não com o coração.
* - Boa parte deste argumento marcado pelo asterisco, incluindo exemplos foi retirado do fenomenal vídeo de Dan Gilbert, no TED:
Foi um tema bem vindo, porque apesar de ter opinião formada a respeito de vários outros temas controversos (e tenho eu cá minhas opiniões controversas, por motivos controversos), neste tema de culinária canina me vi em um mato sem cachorro.
Alias, minha opinião sequer conta aqui. O que quero discutir é a discussão em si, e a dificuldade das pessoas de transpor a barreira emocional e simplesmente usar o cérebro para pensar, raciocinar e usar todas as maravilhosas faculdades logicas que essas atividades proporcionam.
A Historia
A discussão começou com a interdição de um abatedouro de cachorros em Suzano. Admito que li a notícia com certa estranheza. Prepara-se churrex e filet-miau no Brasil desde os tempos em que inventaram a fome. Mas abatedouro para mim, no Brasil, era novidade. Não me abalei, não me impressionei e toquei minha vida adiante.
Até que me deparei com este post daqui.
O texto em si nem me chocou, nem me emocionou nem me perturbou. Foi um texto escrito em tom de gaiato e sincero que eu pessoalmente não consegui concordar nem descordar.
Já os comentários me perturbaram. Não cheguei a ler os mais de 300 comentários (até o dia de hoje), mas os que eu li eram raivosos, rancorosos, violentos, ameaçadores. Nenhum - repito - nenhum deles especificava o porque do comentarista ser contra comer cachorros, como se fosse óbvio, e o blogueiro um delinquente que não está entendendo nada.
Usando o Cérebro.
Me propus a analisar não o fato de comer-se cachorros ou não, não o fato disso ser ético, bonito, gostoso ou não. Simplesmente analisar a reação assustadora das pessoas que comentaram neste caso (e fazer uma analogia para outros assuntos mais pesados). Mas para isso, devo antes deixar claro que, de óbvio, o assunto não tem nada.
Consensos, quando não são baseados em fatos são na verdade uma enorme montanha de preconceitos. Por que ninguém chia quando alguém come carne de porco no Brasil? O que tem o porco de inferior ao cachorro que faz com que seja perfeitamente aceitável não apenas comê-lo, mas criá-lo para este fim?

Porcos são e foram em várias situações e locais animais de estimação. São fofinhos e são extremamente inteligentes, podem servir para prestar vários serviços. Simplesmente não consigo encontrar nenhum fato, que não seja simplesmente cultural, que caracterize o porco como sendo biologicamente em nível inferior ao cão.
Poderia escrever odes às vacas. Vacas podem não ser extremamente inteligentes, mas são carinhosas, tem personalidade e podem vir a ser até bem fofinhas. Vários amigos meus, urbanos até os ossos, ao virem passar um ano aqui em Israel, voluntariando em um kibutz, simplesmente se apaixonaram pelas vacas que cuidaram, chamando pelo nome e tudo mais.
E assim fico tentando imaginar por que nos causa ojeriza (pelo menos a alguns de nós) comer carne de cachorro. Certamente a resposta não é biológica, tampouco é obvia. E certamente não deveria ser fato tido como garantido.
Porrada da Brava.
Quando pessoas tem seus brios culturais atacados, perdem as estribeiras. "Como assim comer cachorro?!" Um consenso não deveria nem sequer ser questionado. Ou deveria?
Não.
Realmente não deve ser questionado, afinal, se fosse não se chamaria consenso. Consensos e ideologias existem como uma especie de piloto automático. Ao invés de se gastar tempo, vitaminas e fósforo do cérebro pensando, usam-se consensos para nortear a vida, tomar decisões importantes de maneira imediata.
Consensos e ideologias são dispositivos tão poderosos na psique humana que provavelmente já foram muito úteis, até mesmo vitais na história evolucionária humana. Por exemplo: se é consenso não comer cachorro (ou porco, como aqui no Oriente Médio, ou vacas, na Índia), melhor nem questionar - afinal:
- deve ter um motivo para ter se tornado um consenso, não?
- a gente vem comendo nossa comidinha e ninguém morre disso. De repente, assim, sem explicação, sair comendo cachorro? Pode dar nó nas tripas. Melhor manter-se dentro do consenso.
Isso explica o fato das pessoas não questionarem seus próprios preconceitos, consensos e hábitos. Só não explica o porque de ficarem tao ofendidas quando alguém o faz.
Já vi bons amigos sem nunca mais se falar por uma discussão a respeito do direito de aborto. Uma pancadaria a respeito da liberação das drogas e milhares (provavelmente milhões) de pessoas assassinadas por motivos religiosos.
Ah! Se as pessoas lessem Platão...!
A grande parte dos maiores maus entendidos a que tenho presenciado são de ordem lógica. Lógica pura. Escreve-se uma coisa, leitores a leem e interpretam do jeito que querem, assassinando mais de 3000 anos de estudos de lógica. Aqui vão alguns exemplos;
- Generalização do caso particular: "Há um carioca que coloca katchup na pizza". Conclusão: "Todo carioca põe katchup na pizza".
- Generalização invertida: "Todo míope usa óculos". Conclusão: "...portanto todos que usam óculos são míopes."
- Generalização de um caso particular com inversão: "Há um carioca que coloca katchup na pizza". Conclusão: "pôs katchup na pizza?! Certeza é carioca!"
Outros exemplos clássicos envolvem a estatística. Estatística é uma parte da matemática complicada e, ao contrário do que se pensa, muito pouco intuitiva. Erros estatísticos em geral são uma compilação de achismos baseados na experiência, ou nas aparências.
Exemplos disso são pessoas vendo na propaganda da loto na televisão, ganhadores sorridentes e felizes em uma entrevista. Pensam: "Eles ganharam. Nós também podemos ganhar!". Se TODOS os perdedores forem entrevistados, cinco segundos de entrevista cada um, ficaríamos ANOS na frente da televisão, sem fazer absolutamente mais nada (nem dormir) vendo essas entrevistas. A ideia de que ganhar na loto é trivial diminuiria significavelmente.* É o mesmo processo que faz pessoas terem muitíssimo mais medo de voar de avião do que andar de carro, apesar do segundo ser várias vezes mais perigoso e mortal.
Erros estatísticos "provam" que comer cachorro é errado: afinal come-se muito mais porcos que cachorros, não? Não. Ou melhor: não sei. Ou melhor ainda: é provável que ninguém saiba, pois não existem números confiáveis. Mas assim nos parece, afinal, nas nossas redondezas, costuma-se ver muito mais gente comendo carne de porco que carne de cachorro.
É o mesmo tipo de erro que apresenta Israel como sendo um lugar perigosíssimo (talvez ainda não tanto quanto Gaza), onde a única coisa que há são guerras e morte. Muitíssimo mais perigoso que, por exemplo, o Rio de Janeiro. (No Rio de Janeiro morreram apenas em confrontos policiais - sem contar aqui assassinatos civis, afinal estou falando de uma guerra - mais de 10000 pessoas. Desde 2000, morreram entre palestinos e israelenses pouco mais de 12 mil). É verdade que ver o Rio nos noticiários como sendo violenta é figurinha carimbada. Aliás, tão carimbada, que assassinatos por lá já faz mais de meio século já não são mais notícias. Já Israel nunca nem jamais aparece em outro contexto que não o do conflito - e quanto mais armado e violento, mais aparece.
Erro estatístico é fácil de se transformar em um pré julgamento. Seguindo exatamente a mesma lógica (ou falta de) que apresentei logo acima, conclui-se que negros são bandidos. Pelo sim, pelo não, atravessa-se a rua para a outra calçada se a rua estiver meio escura e meio vazia. Pré julgamento esse que quando é sobre uma pessoa, baseada em suas origens, se chama de racismo.
"Oras! Você já viu um japonês burro? Um judeu pobre? Uma loira formada em física quântica?" e assim por diante. Colocando assim parece tudo muito óbvio. Mas quando se fala da reação raivosa de gente que usa consensos ao invés de usar a cabeça nada é muito óbvio.
O caso da Geisy Arruda é perfeito para ilustrar. Antes, durante e (pasmaram as feministas) até mesmo depois do linchamento moral da moça, muita gente (talvez a maioria) seguia achando que quem estava errado nesta história toda era a aluna. Afinal "quem anda de vestido curto cor-de-rosa choque está pedindo para ser escorraçado, não?", porque "quem se veste assim é puta".

Prá porrada! Prá porrada!
Se um sujeito vive sob um ideal e um consenso, vai lutar como uma fera para não ver seu mundinho desarmar-se. Uma pessoa é facilmente manipulável para agir de maneira violenta ao ter seu consenso questionado. Uma turba é mais ainda. Especialmente porque consensos tem seu respaldo pelo fato de serem aceitos pelo grupo. "Como assim eu estou errado? Eu? E todos esses meus amigos e colegas e familiares? Tudo completamente errado e você certo? Oras! Quem é você?" E assim, sem pensar muito (na maioria das vezes, sem pensar nada) o sujeito parte para a ignorância, e despeja toda raiva no questionador. Foi assim com o blogueiro e sua vontade de provar cachorro, foi assim com pobre moça da Uniban.
As vezes a briga se divide em times. Os Petistas e os Tucanos. Os comunistas e os capitalistas, os Flamenguistas e os Fluminenses. Os pró-vida e os pró-escolha. Os pró-Israel e os pró-palestinos.
O aglutinamento de todos os pensamentos possíveis em duas vertentes é comum, pois dicotomia, dualismo, dualidade é mais fácil de virar um consenso do que um mundo multifacetado e complexo. E, como já cansei de dizer, o hábito é o de pensar o menos possível e usar os instintos o quanto mais.
Às vezes, numa briga desse tipo, é mais importante mostrar que o outro lado está errado do que postar-se como estando certo. Outra tática bastante comum é desqualificar o "adversário". Para isso vale xingar a mãe e citar preferências sexuais. Nada relevante para o argumento.
"Comer cachorrinhos é errado porque... porque... porque... Oras! Porque você é quem está dizendo que comeria cachorrinhos, e você é um monstro!"
Táticas de Guerra
Clichês;
Na verdade veio em boa ora este novo assunto porque os velhos já estão saturados de clichês. Clichês são frases de efeito gravadas na memória de milhões de idiotas torcedores de certo bloco que são imediatamente usadas como trunfo em meio à discussão. Entender o significado da frase é dispensável, e conhecer a origem dos fatos que ele apresenta também é desnecessário para um bom brigão.
"Fetos já tem pensamentos e sentimentos dentro da barriga da mãe!" contra "O corpo é da mulher, e ela tem direito de fazer com ele o que quiser". Ambos os chavões são populares, suas acuracidades manipuladas de forma a parecerem absolutas e de difícil resposta. Não se baseiam em qualquer dado científico, moral, filosófico ou lógico.
Citar fontes;
"Li na Veja", ou "Olhe este artigo na Wikipédia", "foi meu avozinho que falou. E ele nunca mente", são comuns. Já me deparei até com "foi Deus que me disse!".
Não entro em discussões acadêmicas. Não procuro fontes absolutas nem sequer costumo checar-las muito. Mas se alguém faz um comentário malicioso sobre determinado assunto (religião, ou ateísmo, ou sobre o conflito no oriente médio, ou sobre comer cachorros) e usa como respaldo uma citação, é importante verificar exatamente quais são as motivações do autor citado. No caso do conflito do oriente médio, ou história de Israel (assuntos que posso discutir com relativo conhecimento, e portanto sei) é difícil encontrar até mesmo um acadêmico que já não tenha tomado um partido bem antes de iniciar a pesquisa. Normalmente por motivos religiosos, motivos psicológicos (culpa, medo, ansiedade) e que cavucou a História para encontrar dados que provem a teoria (ao invés do método científico de gerar teorias para explicar os fatos). Raivosos discutidores profissionais da Internet adoram gritar que isso não invalida os dados. Gritam tão alto que esquecem que nenhum dado vive sem seu contexto.
Mudar de assunto;
A melhor colocação desta tática eu vi no filme "Obrigado por Fumar". O trecho relevante começa no vídeo abaixo depois dos 5:45 minutos. Mas o filme está todo no YouTube, e vale à pena vê-lo todo.
Xingar a mãe;
Prá falar a verdade, existem várias variações de xingar a mãe que para um desatento pode parecer como mudança de assunto. Fica por conta do interlocutor aproveitar para cair na porrada também, ou simplesmente deixar prá lá.
Mas por que não dá certo?
O mais importante motivo para uma discussão, seja fora da Internet, mas especialmente dentro simplesmente virar uma gritaria entre surdos, é o que eu chamo de Teoria da Brecha.
Há uma nítida impressão de que cada vez que se concorda com o que o interlocutor afirma, dá-se um ponto para ele, e ao seu argumento. A impressão é a de que quanto mais certo ele estiver, mais errado você estará. Abrir uma pequena brecha para o "inimigo" é impensável. Isso simplesmente faz com que pessoas razoavelmente inteligentes neguem o óbvio.
Exemplos:

- Numa discussão sobre o direito do aborto, um "pró-escolha", em meio ao argumento, afirma que um óvulo não é um ser humano. Imediatamente o "pró-vida" imagina estar abrindo uma brecha para o outro que vai acabar afirmando também que um óvulo recém fertilizado também não é um ser humano, e portanto nega que um óvulo não seja um ser humano.
- Um petista se recusa a aceitar o argumento de um PSDBista de que a situação econômica mundial nos últimos oito anos foi muito favorável. Vai recusar porque acha que isso vai ser usado de argumento contra o Lula de alguma forma. Mesmo que seja a mais absoluta verdade, e não tenha muito que ver com a discussão em questão.
- Um pró Árabe se nega veementemente a aceitar que os governos de maioria muçulmana no mundo ou são teocracias ou presidências totalitárias corruptas e hereditárias. Não vai aceitar não porque seja mentira ou exagero, mas porque acha que por estar aceitando isso, vai abrir uma brecha para o argumento do interlocutor, mesmo que este esteja a falar mal de Israel.
- Finalmente, um "amiguinho dos cachorros" vai se recusar a admitir que vaquinhas e coelhinhos também são fofos, que porcos também são inteligentes e que comer peixe cru no Brasil, há 20 anos atrás também era considerado nojento.
O fim da linha psicológico simplesmente não permite conclusões lógicas. Não parece haver solução próxima, até as pessoas passarem a argumentar e a tentar entender com o cérebro, e não com o coração.
* - Boa parte deste argumento marcado pelo asterisco, incluindo exemplos foi retirado do fenomenal vídeo de Dan Gilbert, no TED:
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