sexta-feira, agosto 15, 2008

Reclamão

Desde a infância tenho sido tachado de reclamão, ou crítico. Isso significa que desde que tomei posse de minhas faculdades mentais (as poucas que tenho) lá pelo final da adolescência (aos 28 anos de idade) tenho evitado ao máximo fazer uso do meu direito de reclamar. Uma espécie de balanceamento. E para falar bem a verdade, porque quem tem fama acaba levando culpa pelo que não fez, e basta eu dizer que a comida está sem sal que parece que a torcida do Flamengo inteira cai sobre mim a dizer que eu só sei reclamar.

E, enfim, aprendi a viver tentando aceitar (pelo menos verbalmente) as coisas como elas são. Mas às vezes a frustração vem à flor da pele (ou melhor, à flor da língua – ou nesse caso, à flor dos dedos) e tenho vontade de compartilhar com os demais a infelicidade de viver. E então neste texto resolvi desabafar e tornar público todo tipo de maldição que venho tentado (às vezes com sucesso, às vezes com menos, às vezes em vão) engolir e manter privado sobre viver aqui onde vivo.

Então aqui vai o que anda me doendo no coração (ou seja lá onde a coisa doa mais):


Cerveja:

A cerveja desta terra jamais será estudada por um cervejeiro, ou seja lá como se chama o enólogo da cevada. Será bem mais propriamente examinada por um paleontólogo especialista em urina de dinossauros. Por ter apenas 30 anos de idade (tudo isso... juro por Deus) não tive o prazer de conhecer os ancestrais dos passarinhos. Mas é sabido que faziam xixi. E imagino que, se bebível, este xixi teria gosto da cerveja que vendem por aqui.

Existem as cervejas ruins, que são as concessionadas por empresas europeias (como Crowsberg e a Tuborg). Essas, se geladas, são praticamente intomáveis. Quando quentes, podem ser usadas para fazer frango no forno – e depois jogadas fora. Em contraste com as ruins, existem as tenebrosas, que são as marcas locais: Macabi e a Goldstar. Podem ser usadas, no máximo, para limpar o ralo entupido.

Ah... Ralo entupido se limpa com Coca-cola... bem, então esqueçam.


Futebol:

Aqui vai a minha dupla frustração com o futebol. A primeira é que eu de-tes-to futebol. Não gosto. Não adianta. Já tentei. Não funciona. Acho que quando eu era criancinha uma bruxa malvada jogou uma bola de couro na minha cabeça, e desde então não consigo ver mais que 10 minutos de jogo sem perder total e completamente a paciência. Mas assim já era no Brasil. Então por que a frustração agora? Porque pelo fato de eu ser brasileiro, a associação com o esporte é imediata. No exato momento em que o cidadão descobre minha nacionalidade, já começa a soletrar de trás prá frente e de frente prá trás toda a escalação de todos os times do campeonato nacional. E eu fico boiando, sem saber nem o que dizer. Depois de revelar a verdade para o sujeito, ele em geral me vem com um:

- Ah! Para aí! Você não é brasileiro coisa nenhuma! Como assim não gosta de futebol?

Sorry. Não gosto. E, decepcionadas, as pessoas me viram a cara e nunca mais falam comigo: ou por me acharem um mentiroso patológico, ou o que é pior, por me considerarem um brasileiro herege.

A segunda frustração vem do fato de que em Israel joga-se muito mal. Final de Copa do Mundo para mim é cansativo de ver. Imagine então jogo entre times daqui. Eu acho melhor nem lembrar...


Filas:

No XXV congresso internacional de sociologia e antropologia foi decidido que o assunto Filas em Israel deve ser discutido por simiologistas. Na melhor das hipóteses a convenção foi a de que Filas em Israel deve ser visto como parte da Teoria do Caos. Antigamente, filas eram um processo utilizado por repartições burocráticas a fim de dar vez ao atendimento de várias pessoas, dando preferência àquelas que chegavam antes. O sistema de filas foi totalmente destituído de qualquer funcionabilidade no momento em que o primeiro cidadão pensou: "Por que diabos estou esperando aqui feito um idiota?". Este mesmo cidadão inventou então o termo "Furar Fila", que se baseia em enfiar-se lá no comecinho da fila, como quem não quer nada. O resto das pessoas, esperando na fila feito idiotas, imediatamente chiou e pensou também "porque ele pode e eu não?".

Pronto: acabaram-se as filas. Pelo menos acabaram-se do jeito que nós conhecemos.

De uma maneira geral Israel tem um sistema burocrático bastante complicado. Não chega aos pés do Brasil (que inclusive inventou a inacreditável profissão de despachante: um sujeito que mediante pagamento fará o tramite burocrático para você), mas é um sistema pesado. Hoje em dia, para se furar uma fila, não basta ir para o começo, como quem não quer nada, sob pena de linchamento público. Usa-se, hoje em dia, de estratagemas complicados e fúteis, que na maioria das vezes não dá muito resultado, mas tenta-se. Ei-los (como diria Ibrahim, nas palavras de Stanislaw):

"É só uma perguntinha"; A fila é quilométrica. Cada um ali tem, além da própria fila, várias coisas interessantes para fazer na vida. Inclusive, perguntar algo no guichê, como parte de seu trâmite burocrático. Mas eis então que surge, vindo de seja lá onde for um gaiato se aproximando rapidamente do comecinho da fila. Todo mundo grita: "Ei, ei! Tem fila, sabia?". Ele responde (ou nem responde): "É só uma perguntinha". Pronto. Vai e se planta meio que de diagonal assim, na entrada do guichê, esperando o atendimento do presente terminar para se enfiar ali e, efetivamente, furar fila.

"Estou depois de você"; Novamente, a fila é quilométrica (evidente. Se fosse curta, ninguém estava nem aí para estratagemas). Sujeito aparece, põe as mãos na cabeça em desespero e então aplica o golpe. Sai perguntando quem é o último da fila (este sistema funciona bem numa repartição, ou banco, em que a fila não é propriamente uma fila: é um amontoado de gente sentada esperando cada um a sua vez – sem ter exatamente uma ideia clara de quem é antes de quem: invenção israelense). Quando o identifica (tudo em voz alta) diz: "Estou depois de você", como se esperasse que alguém lhe guardasse o lugar. Depois sai para furar a fila, para fazer "só uma perguntinha".

"Já estive aqui"; Pois é. O sujeito foi, voltou, revoltou, deu voltas, carimbos, pagamentos, depois de arrumada a papelada, não vai enfrentar novamente a mesma fila, se já esteve ali. Este princípio não se discute aqui em Israel. É lei. Acontece que utilizando-se dele, qualquer gaiato vem e faz pose de infeliz e já vai dizendo que já esteve ali antes. Claro: no mês passado. Mas entra feito o estelionatário que é.


Transito:

Em uma frase: Fabricante de buzinas no oriente médio fica rico em dois dias. Quanto menos europeia a cidade, pior. Durante muito tempo rodei as ruas de bicicleta. Meu sonho era ter eu também uma buzina, para poder revidar. Fantasiava em colocar na parte de trás uma bateria de ácido 12 volts, e no meio do quadro uma gigantesca tuba elétrica de fazer trio elétrico cuspir e sair nadando. Sujeito buzina eu replico com um pequeno terremoto. Como buzinam! Pisca-pisca? Quase ninguém conhece. Freio? Só quando for para cantar pneu.

Lembro no Brasil, que por si não era grande coisa mesmo. Um trilhão de mortos por ano, e ninguém nem aí. Uma falta de respeito tártara. Agora una à total e completa falta de respeito uma incapacidade formidável para conduzir um veículo automotivo (desde patinetes motorizadas a caminhões jamanta). E claro: a perpétua buzina. Pronto, agora você tem um motorista israelense típico.

Morrem aqui de acidente de trânsito algo como 500 a 600 pessoas por ano. Nesta atual intifada morreram ao longo de 5 anos menos de mil. Isso significa que num conflito armado com vizinhos morreram 2.5 vezes menos pessoas que nas estradas. Isso mesmo – guerra aqui (até aqui) mata menos que o trânsito. E tem sido assim desde a criação do estado em 1948.

O pior, pelo menos para meus nervos, não é nem a periculosidade. É em especial problemática a situação em que um motorista, no meio de um trânsito pesado leve em consideração praticar o abuso que descrevo acima no itens "fila". Aí eu tenho vontade de sair do carro, e linchar o dito. Tenho que começar a praticar Ioga.


Longe da Civilizzia Brazillis;

Nos principais centros e emigração de brasileiros pelo mundo há, em um canto ou outro, um barzinho, ou um cantinho onde pode ser encontrado Leite Moça, azeite de dendê, polvilho azedo e doce, guaraná, sonho de valsa, e em alguns casos, até mesmo coxinha, pastel e afins.

Pois aqui não. Nada. Coisa nenhuma. Minha mãe me manda de vez em quando um pacote com as coisas que eu mais gosto, incluindo aí pó para preparo de pão de queijo. Às vezes chega até um livro em português. Mas pastel de camarão de feira... necas.

Meu mundo por um caldo de cana! Meu império por um risoles de palmito! Vendo meu corpo e minha alma ao demônio por uma coxinha. E por favor; não me venham convencer que nem é assim tão difícil fazer. Eu sei. Já fiz várias vezes. Mas o legal não está no fazer em casa, e sim em estar caminhando na rua, sentir o cheirinho e entrar sem nem reparar nos cachorros e no vazilhame de ovo cor-de-rosa no balcão.

Requeijão então?! Catupiry?! Ah! Melhor parar por aqui, que ainda não almocei hoje.

Um comentário:

A. disse...

Gabriel, primeiramente, parabens por ser um reclamao. Odeio pessoas que acham tudo otimo e nao tem nada para reclamar. Esse eh um dos defeitos que mais odeio no Brasil. Eu sempre era/sou a chata, porque sempre tinha e tenho algo a reclamar.
Adorei as suas justas reclamacoes, que me lembraram de escrever tambem sobre a cerveja quente e a falta de respeito as filas. Como eu perco a cabeca com esse povo furando a fila e buzinando feito loucos no transito! As vezes penso que estou num mundo paralelo barbaro.
Sobre o futebol israelense, ainda bem que vc nao curte o esporte, pois eh simplesmente assustador. Eu adoro assistir futebol, mas aqui realmente nao da. Nao se salva um jogador. Fico super feliz quando esta passando um jogo do campeonato europeu, ai que alegria!
Eu nao sinto falta de muita comida brasileira, mas confesso que fiquei exultante quando descobri onde comprar leite condensado e assim poder fazer minhas sobremesas.
Bem, agora vou indo. Ja comentei demais. Nao deixe de escrever por tanto tempo!!! Ate logo!!!!