sábado, março 21, 2009

O Kitsch, o Escorpião e o Ars

Durante o treinamento básico do exercito (yes, I've been there) o comandante do pelotão sugeriu que fosse feita uma bandeira com o símbolo da tropa para a próxima semana de exercícios. Eu até usei um pouco de criatividade durante as horas de vigia sobre uma torre rabiscando meu caderninho, tentando chegar em alguma coisa legal. Especialmente alguma coisa que saísse do estigma dessas bandeiras e camisetas que se viam por aí.

Na minha linguagem, sair do estigma significava basicamente ser absurdamente irônico, esperto, estético, claro, limpo, humorístico e inteligente.

Todos - repito: todos - os meus desenhos foram recebidos pelos oficiais com olhares apopléticos de falta completa de entendimento, suspiros de falta de paciência e virada de olhinhos de indignação. Havia algo de terrivelmente errado comigo, ou com o exército, e hoje não me é difícil entender qual deles.

Fomos mandados no final de semana para casa. Eu tinha acabado de comprar uma série de penas nankin e estava doido para brincar com elas. Simplesmente pensei: então é assim, é? Pois vou entrar na onda desses caras.

Comecei a rabiscar um escorpião gigante, numa perspectiva vista de frente e de baixo, com o enorme ferrão saindo lá de trás e de cima, vindo atacar o observador. Desenho ultra detalhado, as canetas de ponta extremamente finas ajudando bastante. Não tinha nada de útil para fazer mesmo, final de semana perdido, em Beer-Sheva, a coisa era até divertida.

Ars é uma palavra importante em Israel. Ars quer dizer tudo. Explica quase tudo. Desde decisões políticas importantes até o zeitgeist desde país. Ars é um sujeito que ouve música oriental (ou orientalizada) com batidas eletrônicas no máximo volume dentro do seu Subaru modificado e com neon no parachoque e tem certeza que esta abafando. Ars é uma filosofia estética: confunde o que é considerado luxo com o que tem qualidade. Vai se vestir com tudo que há de caro, sem se importar com o fato de que nada combina. Tem uma televisão plasma 900 polegadas no lavabo só porque leu que é chique. O Ars vai tratar seus colegas como reis em sua casa. Mais por questões de honra do que consideração real. Honra... palavra importante para um Ars. Um Ars vai sempre acreditar que força bruta, ou ameaça de força bruta é questão de honra para se resolver um problema. Existem os Ars "light", que eventualmente concordariam em conversar. Mas nunca na frente de outros Arsim.

E, bem, fazer o que? A mentalidade Ars é muito mais comum aqui neste país do que seria considerado saudável. Não é necessário ir muito longe nem passar aqui muito tempo para verificar. Basta abrir o rádio numa estação popular, ver televisão em horário nobre, andar por Haifa, Jerusalém ou Beer-Sheva numa quinta-feira de noite. O grande problema é que o Ars típico se orgulha de ser Ars.

Enfim, divaguei sobre este importante conceito porque é sabido aqui que a maioria do exército, fazer o que? é Ars. E se ninguém achou nenhum interesse nos meus rabiscos, esta seria uma explicação nada ruim. E foi por isso que eu resolvi ser um pouco Ars também e descambar para o Kitsch, fazendo o tal do escorpião.

Se gostaram? Pegaram meu desenho e ficaram olhando um para o outro, depois perguntaram: "Mas foi você que fez isso? Tem certeza?", para receber confirmação e voltar a olhar para o desenho, para perguntar de novo. A coisa repetiu-se umas sete vezes seguidas. Algumas em público, outras ainda com oficiais de patente mais alta. Aí não só me autorizaram a passar o desenho para uma bandeira enorme, como me dispensaram de mais um tedioso exercício para fazê-lo, debaixo de uma sombra, sob os olhos admiradores dos oficiais que passavam e me viam trabalhando.

Perdi o original e a bandeira nessas mudanças que fiz pela vida, e me recuso a refazer o desenho agora. Conto o caso para tentar achar minha própria explicação a este novo caso apresentado pelo jornal Ha'Aretz. Polemizadores se recusarão a aceitar, mas sinto muito, é um problema mais de ordem da estética Ars que politico.

2 comentários:

Paulo disse...

Certamente as camisetas não são apenas uma questão Ars... de todo modo seus textos são muito bons, inteligência, humor e um pouquinho de bom senso, coisas raríssimas hoje em dia.
Parabéns!

bethania disse...

seus textos são ótimos, atualize seu blog com mais frequencia!