segunda-feira, abril 20, 2009

As Viúvas do Benjamim. 1 - Neta de Florentin

Eu lembro da Neta saindo para o terraço, esfregando os olhos de sono sob o sol da manhã de sexta-feira de uma primavera de Tel-Aviv. Estava vestida só de calcinha e o lençol da cama, ainda amassado e ainda com cheiro de sono.

Lembro é modo de dizer. Na verdade eu não lembro nada, porque não estava lá. Me contaram a história. Mas quando me contam da Neta minha imaginação se torna tão gráfica que é como se estivesse lá, vendo a cena. A Neta era (e espero que ainda seja) excitante, sensual, sexual, sem ser exatamente bonita, ou ter um corpo escultural. Acho que era o jeito dela se mover, de andar. E a pele, que não só era impossivelmente branca e bem tratada, mas fazia um contraste interessante com os cabelos ondulados quase azuis de tão negros. E longos. Cabelo que ela sempre usava solto, ou no máximo numa trança mal feita. Era baixinha, quase não tinha quadris ou seios. Tinha uma enorme e linda tatuagem de floral que vinha do ombro direito até quase o fim das costas. No rosto um sorriso estranho, como se a boca fosse grande demais para o rosto pequeno. E um par de olhos azuis escuros que nunca paravam quietos.

O apartamento ficava numa daquelas ruazinhas que um dia foram miseráveis, perto da Florentin, no sul de Tel-Aviv, mas que hoje valem muito. Quase todos os predinhos por ali tem 3 ou 4 andares. Mas aquele tinha 5, e o apartamento do Shai (a.k.a. Elo-Perdido) ficava no topo, numa espécie de cobertura de improviso em que a área construída era de uns trinta metros quadrados, mas o terraço (na verdade apenas a laje superior do edifício) era enorme. E por ser um tiquinho mais alto que todos os outros edifícios, tinha uma vista fantástica, e por cima de todos os outros terraços dava para ver lá no fim Yaffo e logo adiante o mar. E eu lembro do vento frio na manhã quente esticando o lençol sobre o corpo da Neta enquanto ela, ainda esfregando os olhos tentava encontrar o caminho até a cadeira onde o Shai fumava um beque enrolado na noite anterior, de costas para ela, olhando o mar.

Em Israel, uma porcentagem enorme das casas e edifícios tem um sistema de aquecimento de água solar. O "equipamento" são dois radiadores apontados em direção ao sol e uma caldeira que armazena (e às vezes esquenta por via elétrica) a água. Como a caldeira deve ficar acima dos radiadores, e como cada apartamento tem seu próprio sistema de aquecimento, e como essas caldeiras são na verdade cilindros pintados de branco, quem vê o horizonte na altura dos telhados enxerga um verdadeiro mar de baldinhos brancos sobre tudo que está construído.

Shay estava sentado numa daquelas horrorosas cadeiras de plástico, com as pernas para cima, sobre outra cadeira, crocks azuis desgastados no pé, o olhar sobre os baldinhos brancos, até o mar, segurando fundo a fumaça do baseado. O ruido era de muitos passarinhos e a cidade funcionando lá embaixo. Verdureiros gritando para os motoristas dos seus caminhões que nunca encontravam lugar decente para parar enquanto descarregavam, gente discutindo, carros velhos e buzinas. O cheiro era de mar, de flores (primavera em Israel tem o poder de lançar ao ar o cheiro de milhões de flores ao mesmo tempo), de cidade e de baseado. E da Neta, que roubava o cigarro da mão do Shay.

O Shay ganhou o apelido de Elo-Perdido do Márcio, porque ele (o Shay) era bem parecido com aquelas ilustrações de Homo Cro-Magnon fazendo pinturas rupestres dentro de uma caverna. Tinha um cabelão pixaim cobrindo uma cabeça enorme. Olhos castanhos muito próximos um do outro sob uma monocelha cabeluda. Andava sempre com uma barba mal feita, cobrindo ao que parecia mais área do rosto do que era biologicamente possível. O Márcio deu o apelido internamente, entre os brasileiros (com aquela capacidade genial que têm alguns brasileiros de inventar apelidos que pegam). Óbvio que era por ciúmes, porque estava apaixonado pela Neta, como na verdade todo o resto também estava.

Ele teve o joelho esquerdo e os nervos totalmente destruídos no Líbano, quando serviu o exército na unidade do Nachal, antes do Ehud Barak tirar as forças de Israel de lá quando foi primeiro ministro. Foi para a Índia, Goa e Bangladesh, entupiu-se de todas as substâncias químicas permitidas ou não pela lei, pela moral, pelos bons costumes, pela medicina moderna e pelo Erez, o companheiro de viagem. Passou um ano e meio tirando fotos de cenas típicas do terceiríssimo mundo, voltou, de forma impressionante limpou a cabeça, estudou biologia em Beer-Sheva, e passou a trabalhar de fotógrafo de marketing, e de noite barman. Alugava barato aquele apartamento esquisito do irmão, num complicado esquema de herança que nunca ninguém entendeu direito. Como nunca ninguém entendeu direito como diabos a Neta se meteu com um cara como aquele, e como tão rápido se meteu debaixo dos seus lençóis, e finalmente achando um "asilo político" ali depois que o Benjamim desapareceu.

E foi por causa do Benjamim (e depois por causa da tatuagem nas costas, e o que vinha imediatamente abaixo) que passei a me interessar pela Neta. Bem depois descobri que o Shay também o teria conhecido, e passei a me interessar pelo Shay também.

E eu lembro da Neta pegando o bagulho do Shay, sem nenhuma resistência deste, levando o cigarro já quase no final, com as pontinhas dos pequenos dedos aos lábios profanos dela e puxando fundo, enquanto os olhos azuis escuros ainda não conseguiam se acostumar com aquele dia tão azul. De um lado o sol já muito quente e de outro o vento vindo do mar, muito frio, faziam a sua pele se arrepiar, e eu só sei que naquele momento, com o absurdo cheiro de milhões de flores que em Israel se solta no ar em abril, era muito difícil não se apaixonar pela Neta.

3 comentários:

Colafina disse...

Bom. Muito bom mesmo! Escrita leve, que prende a atenção. Aguardamos as próximas...

מיכאל disse...

Oi Gabi, serah que virarei leitor assiduo ? Assiduidade eh reciproca neh, vc tb tem q continuar a escrever... :)

Viu, qal a ligacao da Neta con o Benjamin ? E porque nao chama-lo de Byniamin, jah q usas o nome ambiguo Neta ? Sugestoes de nomes ambiguos: AHAM parece pigarro, CARNI (pronunciado CARNE), ambos nomes bonitos em hebraico...

Bom espero as sequelas, ou flashbacks, o q vier antes.

carol disse...

Gabriel,

Lindo texto. Lindo.

(ótimo blog ;-)

abraço,