sábado, fevereiro 13, 2010

Rafi

- Preciso de um carreto, da Ben-Yehuda em Tel-Aviv até Bialik, em Ramat Gan. Quanto vai me custar?

- Qual é a carga?

- Um colchão e um estrado. Eu carrego tudo. Só preciso do transporte. Quanto sai?

- 200 Shekalim.

- Tá ótimo. - Tava caro. São todos bem caros. E se eu pechinchasse talvez ele baixasse o preço. Mas sou ruim nisso e não estava de bom humor. - Hoje às 6 você está livre?

- Ehn... Deixe-me ver. - Deu um tempo e depois voltou à linha: - Às 6, é? Onde?

- Na Ben-Yehuda, numero tal. Vou estar esperando lá embaixo com o colchão e o estrado.

- Colchão e estrado, né? Prá onde?

- Bialik, Ramat Gan.

- Que andar?

- Não importa. Eu carrego tudo.

- Certo. Vai custar 300 shekalim.

- Mas você acabou de me dizer que eram 200!

- Tá. 200.

O Rafi era um cara em alguma coisa entre os 50 e os 60 anos, mas com aquela cara acabada de de quem fumou a vida inteira. Tinha um cabelo grisalho, bem comprido, até os ombros, que ele não prendia e parecia que também não penteava. Bem magro, um corpo que parecia ser musculoso e encurvado para frente. Estava todo errado. Tinha que estar segurando uma Fender, com um cigarro de maconha pendurado nos beiços tocando hard blues em um palco mal iluminado. Mas estava dirigindo seu caminhão com meu colchão dentro. O caminhão sim que estava certo. Era um desses mercedinhos urbanos com caçamba de lona, toda pichada com spray de cores fosforescentes, desenhos psicodélicos e o telefone dele. Rafi - Mudanças. 054-Tal-Tal-e-Tal.

Subi com ele na cabine. O acabamento de plástico das portas e do painel davam dicas da idade do caminhão. No rádio tocava Galgalatz (pop streamline jabá). Então ele começou com aquilo que parece ser compulsão de todo transportador em Israel: meter-se na minha vida e contar a sua própria.

Depois do "O que é que você faz? Ah! Estuda! O que? E tem trabalho? Dá dinheiro?", ele começou a contar da vida dele.

No exército (não perguntei quando foi isso) ele havia estado em uma unidade de demolição.

- Demolição?

- É. Isso. De paredes a prédios inteiros.

Desmontavam e destruíam de tudo. Galpões, edifícios, construções em geral, pontes, torres - coisa velha no caminho, ou coisa nova mal feita, ou estruturas inimigas. Depois dos três anos obrigatórios, assinou contrato com o exército por mais tempo e acabou ficando mais quatro anos. Fez cursos no exterior e começou a usar explosivos como ninguém.

Depois desse período (e de reclamar do trânsito um bocado) ele contou que foi fazer aquilo na vida civil. Fez alguns cursos no exterior para poder validar seu conhecimento no exército. Depois de vários anos na área de demolição, com empresa própria e tudo, decidiu que não havia mais o que fazer na área. Não havia trabalho (que foi aliás, o lamento que o fez começar a contar a história toda). Vendeu tudo que tinha, comprou o caminhão (que pela cara devia ser aquele mesmo) e vivia de fazer mudanças.

Disse depois que tinha um Caffé seu, na esquina da Hertzel com a Wolfson, mas que o movimento era bem fraco.

Foi lá, aliás, comprando tubos de aço para fazer um dos meus projetos, que eu vi o caminhão estacionado (dentre outros vários) e peguei o telefone. Fiz questão de ver direito o lugar na outra vez que estive por lá. Dentro estava vazio, fora, numa das duas mesas, havia dois velhinhos marroquinos que pareciam ser habitués e jogavam conversa fora.

A musica? O mais brega dos pops orientais. Nada de psicho-rock dos anos 70.

2 comentários:

Sandra disse...

Ah, até que enfim! Estava com saudades dos seus posts. Te sigo no twitter mas não é a mesma coisa. Parabéns por mais uma ótima crônica.

Ricardo Siqueira disse...

Belíssima crônica.